A Última Sessão: O Desejo no Ginásio ao Fim do Dia
Aviso: este é um trabalho de ficção. Todas as personagens deste conto são adultas, com mais de dezoito anos. Qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.
Havia um ritual que Marina não contava a ninguém: chegar ao ginásio ao fim do dia, às nove da noite de sexta-feira, quando a semana já tinha perdido a voz e a cidade se recolhia atrás das janelas molhadas. A academia ficava no segundo andar de um prédio comercial, com uma fachada de vidro que refletia os faróis dos carros lá embaixo. Àquela hora, os halteres voltavam para os suportes, os colchonetes se alinhavam em fileiras disciplinadas e o ar-condicionado baixava para um sussurro. Marina assinava a entrada no tablet do balcão, cumprimentava o recepcionista do turno da noite e seguia direto para a esteira da janela, sempre a mesma, como quem senta sempre no mesmo lugar de um cinema vazio.
Ela tinha escolhido aquele horário por motivos práticos: fugir da multidão das pontas do dia, dos grupos que ocupam as máquinas em esquadrão, do pequeno falatório entre séries, do smartphone filmando espelho. Não gostava de conversar enquanto treinava; gostava do ruído branco da esteira, do contador de metros subindo em silêncio, do corpo ocupado o suficiente para calar a cabeça de arquiteta que passava a semana inteira desenhando prédios para outras pessoas morarem. Às sextas, no fim do expediente, o ginásio ao fim do dia era dela — ou quase dela. Porque, havia meses, existia outro regular.
Marina tinha trinta e quatro anos, cabelo preso num coque baixo cansado de semana e uma camiseta cinza que já tinha visto temporadas melhores. E havia, três metros à frente, sempre pontualmente às nove e dez, o homem do agasalho azul. Durante meses, os dois dividiram aquele espaço como planetas de órbitas estáveis: ela na esteira, ele no remo; ela nos pesos livres, ele no banco de supino; ela no alongamento do fundo, ele na barra fixa. Nenhum cumprimento além do aceno curto, aquele que diz eu sei que você existe e respeito a sua sexta-feira.
Rafael tinha trinta e sete anos, era fisioterapeuta e trabalhava até tarde num ambulatório do outro lado da rua. Treinar às sextas, no último horário, era a única conta que fechava na agenda dele — e talvez por isso os dois tivessem desenvolvido, sem nunca ter trocado uma frase inteira, uma estranha intimidade de horário. Marina sabia que ele corrigia a postura dos outros frequentadores sem pedir licença, só com um gesto educado da mão aberta; sabia que bebía água em goles curtos; sabia que dobrava a toalha em três partes exatas antes de sair. E ele, se alguém perguntasse, teria sabido descrever o coque dela, o fone de ouvido com o cabo enrolado e a constância pontual das nove em ponto.
O circuito das sextas
As sextas tinham gramática própria. O recepcionista baixava o volume do som às nove e meia e trocava o eletrônico por algo lento, quase íntimo; as luzes do fundo, sobre a área de pesos, apagavam primeiro, num aviso gentil de que o dia estava terminando. Nesse horário limiar, o ginásio virava outra coisa, mais silencioso e mais honesto, parecido com aqueles cenários de história que Marina relutava em admitir que gostava de ler — não muito diferente do clima de piscina vazia ao anoitecer que ela encontrara certa noite de insônia, com aquela sensação exata de que o lugar pertencia, por alguns minutos, a duas pessoas apenas.
A semana daquela sexta choveu sem paciência desde a tarde. Às nove e cinco, quando Marina terminou de alongar o ombro, a academia tinha três pessoas: o recepcionista, ela e o agasalho azul. A janela escorria água em veias finas e os faróis lá embaixo borravam em vermelho e âmbar. Ela subiu na esteira, ajustou os 8,5 por hora e deixou o corpo entrar no ritmo conhecido. Às nove e vinte, o homem do remo parou, enxugou o rosto com a toalha dobrada em três e, pela primeira vez em meses, atravessou a sala na direção do bebedouro ao lado da esteira dela.
— Ainda bem que inventaram sexta — ele disse, enchendo o copo, com a naturalidade de quem retoma uma conversa que nunca tinha começado. Marina diminuiu a velocidade da esteira até quase parar. A frase era boba, do tipo que se diz em elevador, mas vinha carregada de meses de acenos trocados. — Ainda bem que inventaram o último horário — ela respondeu, e viu o canto da boca dele subir devagar. Foi o bastante. Uma frase inteira cada um; o recorde absoluto da temporada.
Ele se apoiou no bebedouro; ela desceu da esteira e esticou a toalha sobre a barra. Conversaram de nada — da chuva teimosa, da academia vazia, de quanto o som das nove e meia era melhor que o das sete. Rafael contou do ambulatório, das costas doloridas dos pacientes, do prazer estranho de trabalhar com corpos o dia inteiro sem nunca olhar para nenhum deles como corpo. Marina contou dos prédios, das plantas que passavam por suas mãos e voltavam irreconhecíveis, dos clientes que pediam varanda e depois reclamavam do sol. Entre uma coisa e outra, o recepcionista atravessou com o aviso das dez: o ginásio fechava em vinte minutos, podiam terminar o treino com calma.
Foi na área de alongamento, no fundo, entre espelhos embaçados pelo vapor do chuveiro, que a conversa mudou de chave. Marina e Rafael ficaram frente a frente na área de alongamento deserta, cada um num colchonete, os joelhos a trinta centímetros de distância, e ela percebeu que já não estavam falando de prédios nem de pacientes. Ele perguntou, com a voz mais baixa, por que sextas. Ela respondeu que era o único horário da semana em que não precisava existir para ninguém. Ele disse que entendia exatamente aquilo — e que, nas últimas semanas, tinha começado a esperar as sextas por um motivo que não era o remo, nem o banco de supino, nem a barra fixa.
A frase ficou no ar, inteira, sem pressa de aterrissar. Marina sentiu o calor subir pelo pescoço, aquele calor específico de quem foi visto de verdade depois de muito tempo. Podia rir e mudar de assunto; o corpo dela escolheu o contrário. — Também — disse. Só isso, e foi suficiente. Rafael então fez a pergunta com cuidado, sem se aproximar um único centímetro: se ela queria continuar a conversa do lado de fora, porque o café da esquina fechava às onze e a chuva tinha dado uma trégua. — Quero — ela disse. — Mas vamos a pé. É perto, e eu quero essa conversa inteira, sem pressa.
Depois do último sinal
Saíram às dez e cinco, com as ruas lavadas e o asfalto cheirando a terra molhada. O café da esquina tinha três mesas desequilibradas e um balcão de granito gasto; pediram dois cafés e uma água sem gás, e o garçom fez cara de quem entendeu mais do que devia. Conversaram por quase uma hora. Descobriram o óbvio que meses de acenos tinham escondido: os dois solteiros por escolha recente, os dois cansados de encontros que pareciam entrevistas de emprego, os dois surpresos de estar sentados ali, às onze de uma sexta-feira qualquer, com vontade clara de que a noite não acabasse tão cedo.
Em algum momento entre o segundo café e a caminhada de volta, Rafael disse, com a mesma voz calma que usava para explicar exercícios: — Se em algum momento isso deixar de ser bom para você, você me diz, e a gente volta a ser dois desconhecidos educados de sexta-feira. Marina riu e devolveu: — Combinado. Mas vale para os dois, no sentido dos dois. Foi dito assim, sem cerimônia e sem drama, e exatamente por isso funcionou: cada um podia interromper a qualquer momento, sem explicação e sem custo. Nenhum dos dois sabia ainda quanto a noite ia durar, mas os dois sabiam como ela podia terminar — por escolha, a qualquer instante, com um respeito intacto. Ao longo do caminho, eles renovavam, a cada passo, o consentimento afirmativo e contínuo um do outro, em perguntas curtas e respostas que nunca deixavam margem para dúvida.
Andaram até o prédio dela, nove quarteirões de marquise em marquise, contando os detalhes bobos que meses de silêncio tinham acumulado. Rafael perguntou se podia segurá-la pelo cotovelo num trecho de calçada quebrada; ela ofereceu o braço inteiro e riu da própria pressa. A chuva voltou em fios finos e os dois correram os últimos cinquenta metros rindo baixo, com os casacos jogados sobre a cabeça, parando por fim sob a luz amarela do portão. Ali, sem pressa nenhuma, Marina disse o que tinha decidido ainda no café, com as palavras inteiras: — A noite ainda é minha, e eu escolho continuar. Se você quiser. — Quero — Rafael respondeu. — Só se você quiser também. — Quero.
O beijo veio devagar, o tipo de beijo que pede licença três vezes antes de chegar, e que os dois interromperam por um instante só para rir da semana inteira de acenos desperdiçados. A mão dele parou na altura do ombro dela, esperando; ela cobriu a mão com a dela e a guiou com calma até o canto da mandíbula. Não havia plateia, não havia pressa, não havia nada além da chuva fina no vidro do portão e do zumbido distante de uma cidade que já dormia. Quando o elevador chegou, Marina olhou para ele mais uma vez, com a pergunta inteira desenhada no rosto, e ele respondeu com um aceno — o mesmo aceno curto das sextas, agora carregado de outro significado. A porta do elevador fechou, e o que veio depois ficou somente entre os dois adultos que escolheram, a cada passo, estar ali.
Na segunda-feira seguinte, às nove da noite, dois copos de água esperavam sobre o balcão do bebedouro, e o recepcionista do turno da noite fingiu muito mal que não notou o agasalho azul e a camiseta cinza treinando com os colchonetes enfileirados lado a lado. O ginásio ao fim do dia continuava sendo o lugar de quem não queria existir para ninguém — só que, de vez em quando, descobrir que existir para uma pessoa só, e por escolha, acabava sendo bem melhor. E se esse clima de corpos, horários e decisões cuidadosas falar com você, há mais tensão guardada no ritmo de um treino a dois numa academia boutique, esperando a próxima noite de chuva.