Conto sensual: as raias vazias da piscina ao fim do dia
Há um ano, Luana descobrira que o ginásio ao fim do dia tinha outro dono. Não o gerente, nem o pessoal da limpeza, nem a música comercial das seis da tarde: dono era o silêncio, e o silêncio tinha regras. Às dez da noite, a piscina ficava vazia, as raias flutuavam como cordas de um instrumento esquecido e apenas duas lâmpadas continuavam acesas, desenhando um caminho dourado até o fundo raso. Luana, trinta e dois anos, arquiteta, chegava sempre às vinte e duas em ponto, com a toalha dobrada sob o braço e o óculos de natação já na mão, como quem carrega uma senha de entrada para um mundo onde ninguém pergunta nada.
Ele apareceu numa terça-feira de outubro. Luana estava no meio da segunda série de cem metros quando percebeu, pelo canto do óculos, um vulto entrando na raia ao lado. Nadou até o painel, ajustou o cronômetro e só então olhou de verdade: um homem alto, ombros de quem carrega peso por profissão, entrando na água com um cuidado quase cerimonioso, como se pedisse licença à piscina. Não trocaram uma palavra. Ele nadou. Ela nadou. A água guardou os dois segredos separados por uma linha amarela.
Nas semanas seguintes, o homem voltou. Terças, quintas e, às vezes, sábados. Luana passou a reconhecer o som da braçada dele antes mesmo de ver: um raspar cadenciado, mais devagar que o dela, teimoso como uma maré. Eles dividiam o relógio de parede sem nunca dividir uma frase. Quando um dos dois chegava, o outro desviava o olhar por educação; mas os olhares voltavam, sempre, como a água volta ao lugar da pedra jogada.
Foi num dessesIntervalos banais, entre uma série e outra, agarrada ao bordo para recuperar o fôlego, que Luana soube o nome dele. O recepcionista gritou da cabine: Gabriel, sua ficha vence no dia quinze, quer renovar? Gabriel tinha trinta e cinco anos, ela descobriria depois, e era fisioterapeuta num consultório perto da Praça do Relógio. Ali, naquela noite, ela soube apenas o nome, e o nome pareceu caber perfeitamente no som da braçada dele. Eram dois adultos, Luana com trinta e dois anos e Gabriel com trinta e cinco, e nenhum dos dois tinha pressa de fingir que não notava o outro.
O ritual da última hora
Começou sem combinado, do jeito que começam as coisas que importam. Ela parava sempre no mesmo ponto do comprimento para descansar, o terceiro pego de corda a contar da escada. Ele passou a parar no pego exato da raia dele, na mesma altura, a três metros de distância. Um ritual silencioso de três segundos: respiração, um aceno curto com o queixo, e de volta à água. Três segundos que Luana passou a esperar o dia inteiro, entre pranchas de obras e reuniões que podiam ter sido e-mails.
Ela passou a contar as braçadas dele debaixo d’água, quando os dois se cruzavam no meio do tanque. Sabia que ele respirava a cada três puxadas, sabia que ele fechava os dedos na virada como quem enfia uma chave na fechadura. Ele, por sua vez, passou a errar o cronômetro sempre que ela dava a saída de bordo: o nadar dela era limpo, sem esguicho, e havia algo naquele silêncio deslizante que desmontava a contagem dele. Nenhum dos dois confessaria isso ao outro antes de dezembro.
A primeira frase veio num dia de novembro, quando o aquecimento da piscina falhou e a água baixou dois graus. Estava frio demais para intervalos longos, e os dois se refugiaram ao mesmo tempo no mesmo canto do tanque, onde o aquecedor ainda sussurrava uma corrente morna. Foi ele quem falou, os lábios roxos: se você girar o tronco meio segundo antes na virada, ganha quase um corpo na saída. Ela riu, surpresa. Respondeu que ele nadava como quem tem medo de acordar a água. Gabriel riu também, e o som do riso dele naquela piscina vazia ficou gravado nela como um bilhete dobrado.
Depois disso, os três segundos de aceno viraram três minutos de conversa, e os três minutos viraram o café. O balcão do ginásio fechava às vinte e trinta, mas a máquina de expresso funcionava com moedas, e os dois passaram a dividir a mesinha de fórmica perto dos armários, ela com o cabelo ainda molhado, ele com a toalha no pescoço. Falavam de coisas pequenas: o cliente de Gabriel que fazia fisioterapia por teimosia e não por lesão, os projetos de Luana que morriam na mesa do engenheiro. Falavam de tudo, menos da coisa que pendia entre eles como a linha amarela que separava as raias.
Numa quinta-feira de dezembro, Gabriel não veio. Luana nadou as suas séries inteiras, mas o tanque pareceu maior e mais frio, e o raspar cadenciado da raia ao lado não veio para preencher o ouvido. Ela ficou brava consigo mesma na hora do café: era só um conhecido de piscina, um homem que corrigia a virada dela e ria dos seus treinos. Mas brava é pouco perto do que ela sentiu, e ela sabia a diferença entre as duas palavras. Na terça seguinte, quando ele reapareceu com uma explicação generosa e inútil sobre uma congresso em Aveiro, ela sorriu antes de conseguir se controlar.
Nessa mesma noite, esperando o expresso, Luana se pegou lendo, no celular, histórias parecidas com a sua. Uma era sobre a tensão do último horário num ginásio que esvaziava; ela leu até o fim e fechou a tela sem coragem de olhar para a mesinha de fórmica ao lado. Reconheceu demais cada detalhe: os horários vagos de propósito, os encontros que ninguém chamava de encontro, a espera disfarçada de rotina.
Depois do último crawl
Chovia como o mundo ia acabar quando tudo mudou. O ginásio estava mais vazio do que nunca, a recepção avisara por alto-falante que fechavam à meia-noite por conta da tempestade, e na piscina eram só eles dois, cada um na sua raia, num tanque que a luz das lâmpadas partia em pedaços dourados. Nadaram mais do que de costume, como se os dois soubessem que faltava pouco e resolvessem adiar. Quando pararam, quase à mesma altura do bordo, o alto-falante anunciou trinta minutos para o fechamento, e a voz eletrônica soou como um despertador indesejado.
Saíram da água e sentaram no bordo de azulejo, os pés ainda dentro, os ombros quase se tocando de tanto que a eletricidade da noite encurtava as distâncias. Gabriel demorou para falar, e quando falou foi olhando para o fundo do tanque, não para ela. Disse que tinha passado a vir às dez da noite por causa da piscina vazia, e que continuava vindo por causa de outra coisa que também era vazia e silenciosa e tinha três letras a menos que piscina. Luana sentiu o coração bater no lugar errado, um lugar entre a garganta e o riso.
Ela respondeu que também tinha mudado de horário, embora nunca tivesse dito isso a ninguém, e que uma quinta-feira de dezembro tinha sido a pior quinta-feira do seu ano. Contaram, aos pedaços, tudo o que os três segundos de aceno tinham escondido durante meses. Luana mencionou, rindo, que a situação inteira parecia um daqueles contos que ela andava lendo de madrugada, daqueles em que o ritmo da atração dita o passo de tudo, como naquele treino numa academia boutique que ela tinha lido na semana anterior e achado exagerado até aquela noite. Gabriel disse que queria ser o personagem de um capítulo desses, desde que a autora fosse ela.
As luzes piscaram uma vez, o aviso de fechamento, e os dois ficaram onde estavam, no bordo da piscina, entre o cheiro de cloro e o aviso de fechamento que nenhum dos dois quis obedecer. Foi então que Luana decidiu que não ia deixar aquilo nas mãos do acaso nem da chuva. Olhou para ele com a franqueza que só a água e a madrugada autorizam e disse o que tinha para dizer, palavra por palavra, sem pressa e sem rodeio.
— Sim, eu quero — respondeu Luana, quando ele perguntou se ela queria sair dali com ele. — E se em algum momento eu disser que não, paramos na hora. Nada aqui é obrigação.
Gabriel assentiu devagar e respondeu que era exatamente assim que também entendia: um sim que valia enquanto fosse sim, um acordo que se renovava a cada gesto, a cada respiração, e que qualquer um dos dois podia suspender com uma única palavra. Ele estendeu a mão, palma aberta para cima, esperando. Luana pousou a mão dele na dela. A pele dos dois ainda estava morna da água, e o toque foi tão simples e tão enorme que os dois riram baixinho, de nervoso bom, como adolescentes que descobrem um esconderijo novo.
O beijo veio depois, quando as luzes piscaram pela segunda vez e o vigente silêncio do ginásio inteiro pareceu se inclinar na direção dos dois. Foi um beijo lento, com gosto de cloro e de café de máquina, sem pressa nenhuma de chegar a lugar algum. O texto daquela noite, a partir daqui, prefere se calar: o guarda-roupa fechou, o portão do estacionamento se abriu sob a chuva, o carro seguiu pela marginal com o vidro embaçado, e tudo o que veio depois pertenceu só a Luana e a Gabriel, na penumbra de um apartamento onde nenhuma testemunha foi convidada.
Na manhã seguinte, uma sexta-feira de chuva batida, os dois tomaram café num balcão de esquina, dividindo uma torrada e um silêncio novo, daqueles que já vêm em casal. No cartão do ginásio de Luana, alguém tinha escrito com caneta: toda segunda e quarta, dez da noite, raia ao lado da sua. Ela guardou o bilhete dentro do estojo dos óculos, onde guardava as coisas que não queria perder. E se alguém perguntasse por que uma arquiteta trocara o sol da manhã pela água parada da última hora, ela responderia apenas que o ginásio ao fim do dia tinha outro dono, e que esse dono, agora, tinha nome, telefone e a mania teimosa de nadar com medo de acordar a água.