Contos Eróticos

Depois da Última Série: Um Encontro no Ginásio ao Fim do Dia

Aviso: este é um trabalho de ficção. Todas as personagens deste conto são adultas, com idades entre trinta e um e trinta e seis anos, e tudo o que acontece aqui é imaginado, consensual e reversível: qualquer uma delas pode dizer não a qualquer momento, e o outro respeita.

Marina descobriu por acaso que o ginásio ao fim do dia era um território diferente. Às dez da noite, a música baixava, as luzes da sala de pesos diminuíam para metade e sobravam apenas os obstinados do último horário — quem terminava o trabalho tarde, quem fugia do movimento, quem queria, simplesmente, terminar o dia do seu próprio jeito. Marina tinha trinta e um anos, dava aulas de design em três escolas diferentes e só conseguia treinar depois que o último aluno mandava o último e-mail. Era o seu rito: esteira número sete, vinte e cinco minutos de corrida lenta, depois alongamento no canto perto da janela, sempre com o mesmo fone tocando a mesma playlist de coisas que ninguém precisava entender.

Foi na esteira número oito que ela o notou pela primeira vez. Rui, trinta e seis anos, fisioterapeuta de um ambulatório do outro lado da cidade, corria ao lado dela três noites por semana, há quase dois meses. Nunca trocaram mais do que aquele aceno de cabeça educado que os frequentadores de ginásio trocam — o idioma universal de você também aguenta esse horário, respeito. Mas Marina percebia os detalhes: a forma como ele amarrava o cadarço duas vezes antes de começar, o hábito de virar a garrafa de água exatamente no quilômetro três, o jeito como o suor escorria da têmpora quando ele aumentava a inclinação. Percebia, também, que ele a percebia. Havia semanas que os olhares se cruzavam no espelho da parede e ficavam lá um segundo a mais do que deviam, e Marina saía do ginásio com as bochechas quentes, rindo de si mesma no banco de trás do táxi — trinta e um anos, professora, adulta por completo, e ainda corando como se estivesse no recreio.

A esteira ao lado

Naquela terça-feira chovia, e o ginásio estava mais vazio do que o habitual. Marina entrou sacudindo a água do guarda-chuva e o viu logo: esteira oito, camisa cinza, olhando para ela antes mesmo de ela guardar o casaco no armário. Ela sorriu sem querer. Foi para a esteira sete, ajustou a velocidade e, pela primeira vez em quase dois meses, falou primeiro.

— Também acha que a gente devia dividir a conta de luz deste lugar? Nós duas soas mantemos o último horário de pé.

Rui riu, e o riso dele foi uma coisa que ela guardou imediatamente: baixo, um pouco rouco, com um atraso de meio segundo, como se ele pensasse antes de reagir a qualquer coisa.

— A gerência devia nos dar chaves da porta — ele respondeu, sem tirar o ritmo da corrida. — Na semana passada eu fui o último a sair. Fiquei vinte minutos esperando o segurança aparecer.

— Você devia ter feito o fechamento você mesmo. Desligado tudo, apagado as luzes, virado o herói do prédio.

— Herói do prédio não. Só gosto daqui porque é quieto. De dia é demais barulho, gente demais, espelho demais.

— Espelho demais — ela repetiu, e os dois riram de novo, e foi nesse riso compartilhado que alguma coisa mudou de lugar. Não foi dramático. Ninguém tropeçou, ninguém desligou a esteira em emergência. Só o ar entre a sete e a oito ficou diferente, mais denso, como o ar fica minutos antes de trovejar. A tensão do último horário era uma coisa que Marina já conhecia de ouvir falar — histórias de ginásio eram quase um gênero próprio — mas viver era outra escala. Conversaram os vinte e cinco minutos inteiros, ela ofegante, ele controlando o fôlego com uma facilidade injusta, sobre tudo e sobre nada: a chuva, o bairro, o café ruim da máquina do corredor, a mania que os dois tinham de chegar em casa e ainda ouvirem música de treino no chuveiro.

Quando ela terminou, reduziu a velocidade até parar, enxugou o rosto na toalha e ficou ali, meio segundo, sem saber se ia embora ou se ficava. Ele resolveu por ela.

— Vou alongar no canto da janela. Se quiser companhia, o tapete ao lado costuma estar livre.

Era um convite simples, e ainda assim Marina sentiu o coração acelerar de um jeito que vinte e cinco minutos de corrida não tinham conseguido. Ela pegou a garrafa, a toalha, e foi. Sentaram-se no chão frio, um ao lado do outro, pernas esticadas, a janela embaçada desenhando as luzes da rua lá embaixo. Alongaram em silêncio no começo, o silêncio bom dos que estão à vontade. Depois ele perguntou o nome dela, e ela percebeu que em dois meses de acenos nunca tinham chegado nem a isso.

— Marina. E você?

— Rui. — Ele esticou o ombro, virou o tronco para ela. — Sabe que eu ia pedir isso há semanas? Só não pedia porque às dez e meia da noite a gente acha que qualquer conversa é mais compromisso do que aguenta.

— Eu ia pedir também — ela admitiu, e a honestidade saiu mais fácil do que esperava. — Mas estava gostando do mistério. O senhor da esteira oito. Dava assunto para as minhas alunas por um mês.

— Se sou assunto de aula, quero royalties.

— Pode cobrar em café. Conheço um lugar que abre até meia-noite, duas quadras daqui.

A proposta ficou flutuando no ar, pequena e enorme ao mesmo tempo. Marina olhou para ele e viu que ele hesitava — não o hesitar de quem não quer, o hesitar de quem quer com cuidado, de quem está medindo o passo para não assustar. Isso, estranhamente, fez ela querer mais. Ele adivinhou em parte:

— Só se você quiser. De verdade. Nada aqui precisa acontecer.

— Eu sei — disse ela. — É exatamente por isso que eu quero.

E ali, no tapete de alongamento do ginásio quase vazio, Marina disse a frase que carregava como um trampolim para tudo o que viria: Se eu disser não, paramos, a qualquer momento. Disse olhando nos olhos dele, sem drama, do jeito que se diz algo importante que já era verdade antes de ser falado. Rui assentiu devagar.

— E se você disser sim — ele respondeu —, continuamos. Também a qualquer momento. O sim não é contrato, é notícia de última hora. Pode expirar quando quiser.

— Combinado — disse Marina. — Consentimento afirmativo e reversível, o único tipo que interessa. Agora me ajuda a levantar que minhas pernas viraram geleia.

A caminhada até casa

Saíram para a chuva fina, e a cidade estava daquela cor entre azul e laranja que só existe nas noites molhadas de fim de setembro. O café que Marina tinha sugerido estava com as luzes apagadas, placa na porta, encerrado mais cedo por causa da chuva. Eles dois parados na calçada, debaixo da marquise, sem plano B.

— Aí vai meu plano — disse Rui. — Caminhamos sem rumo até a chuva passar ou até cansar. O que vier primeiro.

— Aceito. Mas eu calo o passo de quem decide o rumo, porque a minha bússola interna é famosa por levar pessoas ao lado errado da linha do trem.

Caminharam. A chuva fininha não passava, e nenhum dos dois se importava. Marina contou da troca de cidade aos vinte e dois, dos três empregos que viraram dois, do hábito de colecionar playlists com nomes esquisitos; Rui contou do ambulatório, das tardes ensinando idosos a recuperar movimento nos ombros, da filha de sete anos que o obrigava a assistir desenhos que ele secretamente adorava e de quem ele falava com um brilho que desarmava qualquer um. Histórias comuns, histórias de gente adulta com vida entulhada e ciente disso — e era justamente isso que fazia a noite parecer valiosa: nenhum dos dois estava fugindo de nada. Estavam só, finalmente, indo na direção um do outro.

Em certo ponto Rui pegou a mochila dela sem pedir licença e pendurou na frente do próprio ombro, junto com a dele, para que Marina pudesse acomodar o guarda-chuva. Foi um gesto pequeno, quase paternal, e Marina sentiu o estômago dar aquele tombo curto. Não era o gesto em si. Era a naturalidade dele, a ausência de encenação. O desejo no ginásio ao fim do dia tinha sido só a faísca; aquela caminhada era a fogueira crescendo devagar, alimentada por conversa, por riso, pela chuva que não decidia parar.

Pararam numa esquina sem nome por perto da casa dela, debaixo de uma árvore que não protegia de nada. Marina virou-se para ele. Havia uma pergunta inteira no rosto dela, e ele esperou — esperou mesmo, as mãos nos bolsos, sem invadir o espaço dela um milímetro que fosse — até que ela respondeu à pergunta que não tinha sido feita.

— Sim — disse ela. — Ainda é sim. E continua sendo até eu dizer outra coisa.

O beijo foi demorado e lento, daqueles que não têm pressa porque ninguém está indo a lugar nenhum. A chuva continuava caindo, fina, teimosa, e a cidade inteira pareceu, por uns minutos, combinar de fazer silêncio. Quando se separaram, Marina encostou a testa no ombro dele e riu baixinho.

— Sabe o que é engraçado? Dois meses de aceno de cabeça pra chegar aqui.

— Eu faria outros dois — disse Rui. — Mas prefiro não fazer.

Ela morava a uma quadra dali. Chegaram ao portão devagar, e ali, na luz amarela do poste, Marina propôs o combinado que já tinham feito no tapete do ginásio: qualquer coisa que acontecesse a partir dali, acontecia porque os dois diziam sim — sim de gente grande, adultos conscientes e sóbrios, sem pressão, sem relógio, sem promessa que não pudessem desmanchar de manhã. Ele concordou com um aceno que ela já começava a reconhecer como a assinatura dele.

— Boa noite, senhora da esteira sete — disse ele.

— Boa noite, senhor da esteira oito — respondeu ela. — Terça que vem, mesmo horário?

— Mesmo horário. E o café reabre às oito. Pode ser antes do treino, se você quiser inverter a ordem das coisas.

Marina entrou, deixou a mochila no chão do corredor, encostou-se na porta fechada e ficou ali um instante, ouvindo os passos dele se afastando na calçada molhada, com um sorriso que doía de bom. Lá fora, a chuva finalmente decidiu parar. E dentro dela, alguma coisa que estava em espera há bastante tempo decidiu, com calma e por escrito, começar.

Se gostou deste conto, leia também o último alongamento de um casal no ginásio ao fim do dia e a história da chave do fechamento e do desejo no último horário, dois encontros diferentes no mesmo território da noite.