Contos Eróticos

Conto Sensual: A Restauradora de Azulejos e o Arquiteto

A restauradora de azulejos chegou ao prédio da Rua da Boavista antes das sete, com a maleta de instrumentos numa das mãos e um café já frio na outra. O vigia bocejou ao registrar o nome no livro de entrada, como se o mundo não tivesse motivo para começar tão cedo. Helena subiu dois lanceados de andaime, acendeu a lanterna de trabalho e ficou frente a frente com o painel pombalino que a contrataram para salvar: trezentos fragmentos de azul e branco cobertos por um século de tinta de cal. Foi quando ouviu, lá embaixo, uma voz grave perguntando ao vigia quem tinha autorizado entrada fora do horário.

Marcos Vieira subiu os degraus de dois em dois, prancheta debaixo do braço e sobrancelha franzida. Arquiteto responsável pela reabilitação, era um homem de hábitos exatos, acostumado a obras que atrasavam e a fornecedores que prometiam milagres. Explicou que a seguradora não cobriria acidente fora do expediente; Helena respondeu, sem tirar os olhos do painel, que fragmento solto não espera expediente. O arquiteto de quarenta e um anos engoliu três respostas ásperas antes de escolher uma quarta, curiosa: perguntou o que ela pretendia fazer com aquela espátula aquecida a vapor. A pergunta certa, feita na hora certa, às vezes vale mais do que um contrato assinado.

Ela explicou. Cal antiga não se arranca com solvente: entope o poro do barro, apaga o brilho do esmalte, mata a cor que sobreviveu a dois séculos de Lisboa. O certo era vapor morno, paciência e técnicas reversíveis de restauro, aquelas que permitem voltar atrás quando alguém, no futuro, souber mais do que nós. Marcos cruzou os braços, observou a primeira placa soltar-se inteira da parede e, por um instante, esqueceu que estava ali para fiscalizar. Helena percebeu. Percebeu também que ele percebera, e os dois fingiram, com o mesmo empenho, que nada tinha acontecido.

A obra que ensinou paciência

As semanas seguintes criaram um ritual. Ele chegava às oito com dois cafés, entregava um sem comentário e ficava tempo demais por perto, fingindo conferir medições que já conhecia de cor. Ela passava a mão nos fragmentos como quem lê uma carta antiga e narrava, para ninguém em especial, o que descobria: um azul da Holanda aplicado antes do terramoto, uma assinatura de oleiro escondida no canto inferior, uma reparação tosca feita nos anos quarenta por alguém com pressa. Marcos anotava tudo na prancheta. Não por obrigação. Anotava porque a voz dela transformava parede em história, e ele saía de lá cada tarde um pouco menos apressado.

O prédio ajudava. Era um sobrado de três andares com pátio interno, habitado por uma costureira octogenária que bordava junto à janela e por um casal de músicos que ensaiava escalas em horários impossíveis. Todos sabiam o nome de Helena antes de saber o nome do arquiteto, o que Marcos fingia não notar e notava demais. Dona Eulália, a costureira, resumiu a situação num comentário de janela: quem mexe em casa velha acaba mexendo em gente. Helena riu, guardou a frase no bolso do avental e só foi entendê-la muitas semanas depois.

Houve atratos, é claro. Ele queria cronograma fechado; ela defendia que restauro não assina data sem conhecer o inimigo. Discutiram numa terça-feira, diante do painel do pátio, sobre remover ou não uma repintura inteira; discutiram de novo na quinta, sobre o tom do azul de reintegração. Nas duas vezes terminaram mais próximos do que começaram, do jeito que acontece quando dois adultos discordam sem diminuir um ao outro. Numa sexta chuvosa, sem luz suficiente vinda do cortiço vizinho, Marcos segurou a lanterna durante duas horas para que ela terminasse a junta de uma placa. O braço dele tremia; ele jurou que não. Helena segurou o pulso dele por um segundo, reposicionou o facho e devolveu-lhe a mão com uma seriedade que dizia outra coisa.

Almoçaram juntos pela primeira vez por acaso, na tasca da esquina, dividindo uma tosta mista enquanto debatiam patrimônio contra mercado imobiliário. Ele dizia que salvar um prédio é negociar com o presente; ela dizia que negociar sem lembrar do passado é perder a partida antes de começar. No fim, nenhum convenceu o outro, e os dois saíram de lá com a estranha leveza de quem discordou bem. Foi nesse almoço que Marcos contou que a avó fora oleira em Sacavém, que a casa da família ainda guardava pratos tortos de barro vermelho e que ele mesmo, aos doze anos, decidira que barro era coisa de gente de outro tempo. Arquitetura fora a fuga. Agora, assistir Helena trabalhar fazia-o suspeitar que a fuga o trouxera de volta ao mesmo lugar por outra porta. Ela riu do jeito de quem entende: também fugira, de um casamento que durou o suficiente para ensinar o que ela não queria. Contou isso sem drama, naquele tom plano com que se fecha uma gaveta antiga.

A entrega estava marcada para a inspeção técnica de novembro. Faltavam nove painéis, e a construtora empurrou o prazo duas vezes por motivos que não dependiam deles. Foi então que Helena propôs o sábado: porta fechada, andaime livre, sem engenheiros circulando com capacetes brancos e perguntas retóricas. Marcos hesitou por um motivo que não soube nomear e aceitou por um motivo que sabia muito bem. Marcaram sete horas. Desta vez, nenhum dos dois precisou perguntar ao vigia quem autorizava.

O sim dito devagar

O sábado amanheceu limpo. Trabalharam a manhã inteira em silêncio bom, daqueles que só existem entre pessoas que já mediram o limite exato da própria paciência. No meio da tarde, Helena descobriu, atrás de uma placa falsa dos anos quarenta, o fragmento original: uma gaivota desenhada com três traços e, no verso, uma inscrição a tinta ferrogálica. Chamou Marcos. Juntos, sob a luz da lanterna, leram o que o oleiro deixou ali para ninguém, duzentos e trinta anos antes: quem conserta, cuida. Foi a coisa mais parecida com uma declaração que aquele prédio já presenciou.

Terminaram o penúltimo painel quando o sol já ia baixo. Helena desceu do andaime, tirou os óculos de proteção e, pela primeira vez em semanas, olhou Marcos sem nenhum painel entre os dois. O silêncio mudou de temperatura. Ele aproximou um passo, parou e disse baixo: se ele estivesse lendo errado, que ela o corrigisse agora. Ela respondeu que não havia leitura errada nenhuma, mas que gostava das coisas ditas por inteiro, sem subentendidos de obra.

Então Marcos disse. Disse que pensava nela nas manhãs em que não havia motivo para ir à obra e ia mesmo assim; que o sábado fora a desculpa mais transparente da vida dele; que a respeitava demais para confundir admiração com pressa. A restauradora de trinta e nove anos, com cal nas cutículas e um século de azul na lembrança, respondeu no mesmo tom: gostava dele, gostava daquele silêncio bom, e queria descobrir o resto sem que nenhum dos dois deixasse de ser inteiro.

Havia ali duas pessoas adultas, cada uma dona das próprias escolhas: sem chefia, sem favor a devolver, sem copo que embaçasse decisão alguma. Helena tinha trinta e nove anos e Marcos quarenta e um — dois adultos, ambos bem maiores de dezoito anos — e foi com essa clareza que ele perguntou, simples: — Sim? — Sim — disse ela, sem desviar os olhos. — Eu quero. Se eu mudar de ideia, paramos; se tu mudares, paramos também. — Consentimento dito em voz alta, sem pressa, do mesmo jeito que ela escolhia pigmento: com precisão e com vontade.

O que veio depois não coube em prancheta nem em cronograma. Um beijo com gosto de café requentado, as mãos dele cuidadosas como quem manuseia esmalte de duzentos anos, a lanterna apagada por engano e acesa de propósito. No ateliê improvisado no terceiro andar, entre andaimes cobertos de lona e o perfume de cal úmida, os dois atravessaram a tarde como quem atravessa uma casa antiga: devagar, admirando cada detalhe, sem pressa de chegar onde já estavam. O que fizeram ali ficou entre eles; o prédio, que já viu de tudo, não registrou.

No domingo, ainda meio sono, conversaram enrolados em lona de proteção sobre coisas que nunca haviam dito a ninguém em voz alta. Ele contou do medo de virar o pai, homem que media afeto em silêncio; ela contou que aprender a dizer não a tempo fora a obra mais difícil da vida dela, e que por isso dizia sim com o mesmo cuidado. Nenhum dos dois prometeu futuro. Prometeram verdade, que rende mais.

No domingo mesmo terminaram o último painel, ela na parede, ele segurando a luz, na mesma posição daquela sexta chuvosa — só que agora ninguém tremia de cansaço. A inspeção de segunda correu bem; o parecer elogiou a reintegração cromática, e ninguém do júri saberá jamais que a gaivota de três traços guarda, no verso, a frase que os dois copiaram para dentro de uma agenda comum. Feito no restauro, feito entre eles: nada de definitivo, tudo de reversível. Reversível não quer dizer descartável, Helena explicaria depois; quer dizer que se escolhe de novo a cada manhã, e escolher de novo é o contrário de ser obrigado.

Para quem acompanha esta coleção de ficção adulta e consensual, vale conferir também a ordem de leitura das séries do site, pensada para quem gosta de histórias que se escolhem aos poucos. E se o leitor aprecia encontros construídos na tensão entre admiração e desejo, entre gente que se mede antes de se escolher, outro exemplo está em A Aluna Adulta e o Professor de Literatura.