Sob o Céu do Observatório: Um Conto Sensual de Outono
Quando o último visitante desceu a ladeira de cascalho, Bianca percebeu que ainda faltava alguém: um caderno de esboços ficara aberto sobre a mesa dos mapas celestes, e o dono continuava debruçado no murete de pedra, a cabeça inclinada para cima como se o céu lhe devesse uma explicação. Era a terceira noite de observação aberta ao público daquele outono na serra, a primeira com previsão de céu realmente limpo, e Bianca, trinta e quatro anos, voluntária do observatório desde que trocara a cidade por um emprego remoto, conhecia o rosto de todo mundo que passara pela cúpula naquela noite — menos o dele.
Ele se apresentou quando ela se aproximou para avisar que iam fechar: Rodrigo, trinta e seis anos, ilustrador, tinha vindo de propósito porque a previsão prometia ar seco e ausência de lua. Não quisera telescópio nenhum na maior parte do tempo; preferia desenhar a olho nu, deitado na manta que estendera no gramado, transferindo para o papel o risco da Cassiopeia como quem copia a caligrafia de alguém.
— O senhor vai perder a hora do último ônibus — ela disse, mais por hábito do que por convicção, porque na serra o último ônibus passava às vinte e três horas e o relógio já tinha passado das vinte e duas.
— Vim de carro — ele respondeu, sem tirar os olhos do alto. — E a chuva de meteoros só fica boa depois da meia-noite. A senhora sabe disso melhor do que eu.
Bianca sabia. Tinham sido as mãos dela que penduraram o quadro com a previsão de Táuridas no vestíbulo. Trabalhava com o céu de outono havia anos e ainda sentia um aperto bobo no peito quando uma estrela cadente riscava o escuro; só não sabia que esse aperto também podia ser provocado pela voz baixa de um desconhecido segurando um lápis com o polegar manchado de nanquim.
Havia quem jurasse que a serra em outubro tinha clima de conto sensual, ar fino e promessa escondida no escuro; Bianca sempre rira da frase, e por isso notou, meio irritada, que ela voltava inteira à boca dela naquela noite.
Foi ela quem propôs, no fim, metade por teimosia, metade por curiosidade: se ele ia esperar os meteoros, que ao menos esperasse onde o chão não molhasse; a varanda da casa do vigia tinha cadeiras, um termo com café ainda quente e a melhor vista da encosta. Rodrigo fechou o caderno, sorriu com um canto da boca e aceitou, desde que ela explicasse de novo a diferença entre um aglomerado e uma constelação, porque no desenho ele tinha trapaceado.
O caderno de constelações
O caderno, na varanda, sob a luz baixa e âmbar, era melhor do que Bianca esperava. Não havia estrela desenhada em nenhuma página: Rodrigo desenhava o vazio entre as estrelas, os negros que costuram o céu, e só depois, com um traço mínimo, marcava onde a luz tinha ficado. Ele explicou que ilustrava livros de ciência para crianças e que odiava desenhar pontinhos amarelos em papel azul; as crianças mereciam saber que o céu era quase todo breu, e que era justamente o breu que fazia as estrelas valerem.
— Isso devia estar pendurado na cúpula — ela disse, virando uma página onde a Via Láctea era um rio de traços em nanquim.
— A diretoria acha meus céus muito tristes — ele riu. — Dizem que assustam os visitantes.
— Não assustam. Só lembram que a gente é pequeno. E tem gente que gosta de se sentir pequena.
A conversa escorregou por aí: por empregos remotos que permitiam morar onde o ar era bom, por cidades de onde os dois tinham saído sem saudade nenhuma, por livros de astronomia que mentiam e livros que não. O café foi renovado duas vezes. A cada meia hora, Bianca fazia o passeio de praxe pelo gramado para conferir o telescópio que ficava montado para os casos raros de visitante madrugador, e voltava; sem combinar, sem justificar, voltava.
O porteiro já tinha trancado o portão principal e ido embora com a chave-mestra; o combinado da diretoria era que Bianca fechasse tudo quando o último visitante partisse, e ela fechou, metodicamente, a tampa da lente, o painel, o cadeado da escotilha, cada coisa em seu lugar, enquanto uma voz interior muito razoável perguntava por que ela ainda não tinha inventado um motivo para mandar aquele homem dormir. A voz razoável perdeu, como perde toda noite de outono em que o ar está seco e o céu está limpo.
Não houve toque, naquela parte da noite. Houve o que vem antes do toque e que às vezes pesa mais: a pausa que ele fazia quando ela se sentava, o jeito de recolher a manta para que sobrasse espaço no degrau, a atenção com que Rodrigo a ouvia contar da vez em que viu um bólido verde atravessar o céu inteiro acima do telhado da casa dos avós, aos doze anos, e de como aquele único minuto tinha decidido o resto da vida dela.
Rodrigo desenhava enquanto ela falava, sem cerimônia, como quem toma nota. Quando ela perguntou o que ele estava rabiscando, ele virou o caderno: era ela, de perfil contra a luz da varanda, três linhas apenas — o queixo erguido, o cabelo preso com um lápis, a mão segurando a caneca como se aquecesse os nós dos dedos.
— Não pedi retrato — ela disse.
— Você também não pediu chuva de meteoros e ela vem aí do mesmo jeito — ele respondeu.
E riram, e o riso ficou pendurado entre os dois um segundo a mais do que o riso costuma pedir.
A primeira Táurida veio antes da meia-noite: um risco curto, tímido, a leste. Rodrigo se levantou de um pulo, derrubando o lápis, e Bianca descobriu que queria guardar aquele entusiasmo com as duas mãos. Saíram para o gramado, ela com o termo, ele com o caderno debaixo do braço, e se deitaram nas mantas dele, lado a lado, os ombros quase se tocando, esperando o céu se decidir.
A chuva de meteoros das Táuridas veio em ondas. Às vinte e duas, uma bola de fogo lenta riscou metade do céu e deixou os dois sem fôlego; às vinte e três, um enxame de riscos rápidos como fagulhas; à meia-noite, um silêncio comprido em que a única coisa que caiu foi a temperatura, e Bianca sentiu o frio dos gramados de serra entrar pelos joelhos.
— Minhas desculpas oficiais pelo breu triste — ela disse, enfiando a mão no bolso do casaco dele, procurando calor sem admitir que procurava.
— O breu está ótimo — ele respondeu. — É o resto que está difícil.
Ela virou o rosto no escuro e encontrou o dele a poucos centímetros, os olhos dele já nela, sem pressa nenhuma de fingir que olhava para cima.
A pergunta antes do sim
Ali estavam dois adultos, ambos bem maiores de dezoito anos, com idade de sobra para saber que aquilo tinha outro nome além de astronomia amadora; e justamente por serem adultos, nenhum dos dois ia dar nada por entendido. Foi Rodrigo quem disse, com a voz mais grave do que a conversa inteira:
— Vou te contar uma coisa e você decide o que faz com ela. Eu queria te beijar desde a segunda caneca de café.
Bianca sentiu o calor subir pelo pescoço, aquele calor que telescópio nenhum registra. Não respondeu com beijo; respondeu com verdade:
— Eu também. Só não queria que a noite virasse assunto do grupo de voluntários na semana que vem.
— Não vira. O que rolar aqui é nosso — ele disse. — E o que não rolar também é.
Ele ficou exatamente onde estava, sem avançar um milímetro, o olhar perguntando de novo; ele perguntou, baixo, se ela ainda queria continuar; ela disse que sim, e que bastaria uma palavra para pararem — e que a regra valia para os dois, a noite inteira. Combinado assim, sem contrato e sem vergonha, como se combinam as coisas sérias.
O beijo veio devagar, como tudo naquela noite: primeiro o teste do frio nas pontas dos dedos, depois a mão firme na nuca, depois a boca que chegou sem atropelo, com gosto de café adoçado com mel da serra. Foi na hora em que Rodrigo estendeu a mão e Bianca atravessou os três palmos de manta que ainda os separavam, e o céu inteiro continuou existindo, indiferente e perfeito, por cima dos dois.
Havia qualquer coisa de honesto na forma como os dois administravam a própria vontade: nenhum teatro, nenhuma urgência de adolescente. Rodrigo perguntava se estava bom assim e esperava a resposta inteira antes de seguir; Bianca dizia o que queria sem rodeio, descobrindo que dizer já é metade do prazer. Nenhum roteiro, nenhuma palavra combinada antes — só a confiança de quem pode parar a qualquer momento, e que, por isso mesmo, não quer parar.
Choveram estrelas a noite toda, e eles viram a maioria por cima do ombro um do outro, rindo baixo, porque ninguém consegue escolher entre um bólido e uma boca que acabou de dizer o seu nome do jeito certo. A certa altura Bianca puxou o cobertor extra da mochila dele e os dois se enrolaram nele como quem fecha um parênteses; as mãos se aqueceram, as risadas perderam volume, e o que veio depois foi feito de demora e de cuidado, de perguntas pequenas respondidas com sim e de pausas que ninguém precisou desculpar.
Antes de tudo o que ficaria apenas entre eles, Rodrigo parou mais uma vez, a testa encostada na dela, e repetiu a pergunta, porque repetir pergunta também é um jeito de dizer que a resposta importa; e ouviu o sim de novo, e o dela veio com uma risada contida e um aviso gentil: se a Táurida fizesse uma bola de fogo daquelas, ela ia se distrair de qualquer jeito. Distraiu. Duas vezes. E ninguém se arrependeu.
O resto da noite não foi registrado em nenhum caderno, o que era uma pena, porque Rodrigo desenhava bem o escuro. O sol nasceu atrás da serra e encontrou as duas mantas transformadas num só casulo, o termo vazio, o telescópio ainda apontado para lugar nenhum e dois desconhecidos de ontem tomando café em silêncio, com a intimidade de quem já sabe onde o outro guarda o açúcar. Quando ele foi embora, no meio da manhã, ficou combinado o que os adultos combinam: que ele voltaria na próxima noite de céu limpo, que ela reservaria a varanda e que nenhuma pressa tinha pressa nenhuma.
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