Contos Eróticos

A Aula de Yoga das Sete da Manhã e o Que Veio Depois

Marina chegou ao estúdio às seis e cinquenta da manhã, com o cabelo ainda úmido da chuva que desabara sobre a Vila Madalena durante a madrugada. Terça-feira era o dia da aula de yoga das sete da manhã, a única hora da semana que ela defendia com a teimosia de quem já cancelou jantar, reunião e até consulta no dentista para não perder. Subiu os três lances de escada devagar, sentindo o prédio acordar junto com ela: cheiro de café vazando por baixo de uma porta no segundo andar, um rádio ligado baixinho atrás de outra, a cidade inteira se espreguiçando antes do primeiro ônibus lotado.

A sala já estava aquecida. A professora acendia as velas de barro no aparador, alguém enrolava com dificuldade um tapete lilás recém-comprado, e o cheiro de sândalo misturava-se ao de cera de assoalho. Marina ocupou seu canto de sempre, ao lado da janela alta por onde se via um recorte de telhado e um fio onde um pássaro se equilibrava sem pressa nenhuma. Do lado de fora, as pedras da rua ainda brilhavam. Ela fechou os olhos um instante e tentou deixar a semana lá embaixo, três andares abaixo, encharcada e irrelevante.

— Marina?

A voz chegou antes do rosto, e ela soube de quem era antes de terminar de se virar. Reconhecimento assim não se pensa; acontece no corpo, um calor rápido na base do pescoço, um aviso de que o dia mudou de plano.

Na porta do estúdio, com uma toalha no ombro e a respiração curta de quem subiu a escada apressado, estava Rafael. O mesmo Rafael do casamento da Verônica e do Téo, dois anos antes, no interior — o do forró dançado até o sino da igreja badalar, o da conversa longa ao lado da piscina que terminou num quase-beijo interrompido por fogos de artifício. Marina tinha trinta e dois anos, Rafael trinta e cinco — dois adultos, e nenhum dos dois devia desculpas a ninguém pelo que sentia. Ainda assim, nenhum dos dois dissera uma palavra no ano seguinte, apesar dos números trocados com a solenidade de quem assina um contrato.

— Vou atrapalhar se ficar? — ele perguntou, baixinho, espiando a sala pela fresta da porta. — Vi a placa na esquina semana passada e prometi a mim mesmo que vinha. Toda terça, dizia a placa. Toda terça me lembrava de você.

Marina tocou o tapete ao lado do dela com a ponta do pé, num convite que dispensava discurso.

O tapete ao lado

A aula começou como sempre: sentados, coluna longa, mãos repousadas sobre os joelhos. — Hoje a gente treina presença — disse a professora, caminhando devagar entre os tapetes. — O corpo onde ele está; a mente onde o corpo está. Parece simples e é a coisa mais difícil da cidade. Marina riu por dentro. Presença, ela pensou, era justo o problema: porque a presença inteira dela cabia agora no espaço de um tapete e meio, na respiração de quem se sentara ao seu lado como se dois anos não tivessem passado.

Iniciaram a saudação ao sol, e o estúdio foi ficando quente. Marina conhecia a sequência de cor: braços acima, dobrar, olhar à frente, o chão recebendo o peso do corpo. O que ela não conhecia era o eco daquela outra respiração, mais lenta que a dela, um ritmo grave que se recusava a competir com coisa alguma. Na segunda saudação, ajustaram o passo sem combinar, e por um instante os dois corpos subiram e desceram juntos, como uma maré que decidira ensaiar.

No espelho comprido da parede, os olhares se encontraram por acidente, duas, três vezes. Marina corrigiu a postura, fixou o drishti — o ponto onde a vista deve pousar — e escolheu o próprio cotovelo como refúgio. Funcionou por quase um guerreiro inteiro.

— Para o próximo, em duplas — anunciou a professora, e a sala inteira fez aquele ruído de protesto carinhoso que toda sala de yoga faz. — Respiração costas com costas. E lembrem-se: ninguém toca ninguém sem perguntar. O consentimento começa aqui, no tapete, ou não começa em lugar nenhum.

Marina se voltou para Rafael antes que o silêncio decidisse por eles. — Posso? — Ele assentiu, e ela leu nele o mesmo cuidado: a pergunta feita de verdade, a resposta dada de verdade. Sentaram-se costas com costas, vértebra por vértebra, até as escápulas se encontrarem. A respiração compartilhada começou descompassada, depois negociou, depois combinou — e quando os dois pulmões enfim respiraram no mesmo tempo, Marina sentiu o coração dele batendo devagar entre as costas dela, honesto como um tambor. Se ele percebeu o dela acelerar, teve a elegância de não dizer nada.

Veio a pose da árvore, e o equilíbrio de Marina — de costume o seu ponto forte — resolveu vacilar. Um oscilar mínimo, um pé que procurou a coxa e escorregou. Dois dedos tocaram seu cotovelo, firmes o suficiente para lembrar ao corpo onde estava o chão. Ela olhou de soslaio; Rafael manteve a mão aberta, solta, pronta para sair a qualquer instante. — Obrigada — ela disse quando a pose terminou, e a palavra saiu mais inteira do que ela pretendia.

A chuva voltou contra a vidraça, fina e teimosa, e o estúdio inteiro pareceu recolher-se para dentro de si. Areia e sândalo, o som ritmado das respirações, o ranger discreto de um tapete novo. Marina pensou, sem nenhum horror, que ali estava a coisa mais simples que duas pessoas podiam fazer uma pela outra: respirar no mesmo compasso por dez minutos, sem pedir nada além disso. Pensou também, com um calor subindo pelo pescoço, que nada naquela manhã terminaria em dez minutos.

Depois da última respiração

O gong soou para o savasana, e a professora deixou o último som morrer sozinho, sem pressa. Quando abriram os olhos, a sala tinha aquela luz macia das sete e quarenta, e lá fora a chuva tinha parado outra vez, deixando o mundo lavado e provisório. Rafael enrolou o tapete emprestado devagar, como quem estica um instante. — Posso te oferecer um café? — perguntou. — É o mínimo depois que eu quase derrubei seu equilíbrio.

A padaria da esquina tinha mesas de madeira desbotada e um balcão donde os pães saíam em fileira, num compasso próprio. Pediram média e croissant, e a conversa começou do jeito que conversas assim começam: pelo meio, sem prefácio. Ele contou que se mudara para o bairro por causa do trabalho, que o telefone com o número dela afundara na água de Paraty num réveillon — jura que foi acidente, jura que procurou o número em todas as redes sociais, jura que desistiu quando descobriu que o nome dela era comum demais para achar sem pedir a ninguém.

— Eu escrevi a mensagem — admitiu Marina, girando a xícara devagar no pires. — No domingo, depois do casamento. Ficou pronta durante três dias no rascunho. Depois decidi que, se você quisesse, tinha escrito primeiro. — Essa é a pior política externa que já ouvi — ele disse, rindo, e o riso dele continuava o mesmo do forró, um riso que puxava o riso dos outros na reboque.

Falaram do quase-beijo à beira da piscina, por fim, sem rodeio — porque entre adultos existe uma hora em que a única saída é a porta da frente. — Os fogos atrapalharam — disse Rafael. — Na minha versão, eu esperava os fogos acabarem e alguém chamou o noivo para discursar. — Na minha versão, eu esperei você voltar — disse Marina. E ficou dito.

Marina não acreditava em acasos com destino, mas acreditava em janelas — acreditava que uma amiga sua jurava que bastou um jantar a dois para reacender quinze anos de casamento, e que outra conhecera alguém ao dividir o céu do observatório numa noite fria de outono. Janelas abrem-se pouco e fecham-se sozinhas; a decisão de passar por elas é que é inteiramente nossa. A chuva recomeçou lá fora, agora séria, com intenção.

— Eu moro duas ruas daqui — disse Marina, e não terminou a frase porque não precisava. As frases inteiras, naquela manhã, estavam sendo economizadas para ocasiões maiores. Rafael pagou as duas médias antes que ela alcançasse a carteira e disse apenas: — Chove. Eu te acompanho.

Caminharam debaixo de um guarda-chuva emprestado pela padaria, tamanho justo para os ombros encostarem. Na porta do prédio dela, com a chuva desenhando a calçada de novo, Marina parou no primeiro degrau — o que a deixava um dedo mais alta que ele, e ela gostou de ter essa vantagem. — Sobe comigo, se você quiser — disse Marina. — Quero. E paramos no segundo em que qualquer um de nós quiser — ele respondeu, sem desviar o olhar. — Combinado — ela disse, e a palavra ficou pairando entre os dois combinado e firme como uma chave entregue de mão estendida.

Subiram a escada do prédio antigo devagar, sem correria, como quem sabe que a pressa é inimiga daquilo que não se quer estragar. No apartamento, ela acendeu só a luz da cozinha; o vapor da chaleira subiu; as coisas de duas manhãs diferentes — o chinelo dela, o tênis dele — se acomodaram lado a lado junto à porta sem cerimônia nenhuma, como se praticassem aquilo havia anos.

O que veio depois não tem pressa de ser contado: houve tempo, e cuidado, e riso baixinho, e a chuva fazendo companhia do outro lado da janela o tempo inteiro. Houve, sobretudo, a pergunta e a resposta se repetindo a cada passo — pode, quer, sim —, porque Marina e Rafael eram da escola em que o desejo pede licença, sobretudo de manhã, ainda mais de manhã.

Mais tarde, muito mais tarde, com a cidade a poucos minutos de começar de verdade, os dois ficaram de pé junto à janela da sala, dividindo a mesma caneca de chá. — A mesma aula, terça que vem? — perguntou Rafael. — A mesma — disse Marina. — Mas o tapete, da próxima vez, você traz o seu. E na terça seguinte, às seis e cinquenta, dois tapetes já estavam lado a lado ao lado da janela antes de qualquer outro aluno chegar — e uma turma inteira fingiu, com grande generosidade, que não via nada demais naquilo.