Conto Erótico: A Aluna Adulta e o Professor de Literatura
O boletim chegou por e-mail numa terça de primavera, entre a aprovação em Metodologia e um convite para jantar que Helena já sabia que recusaria. Literatura Portuguesa — Conceito: Reprovada. Ela leu a linha três vezes, à procura de um erro de digitação que não veio. Helena era arquiteta, sócia de um escritório pequeno e conhecido por escadas impossíveis, e tinha voltado à universidade para o mestrado em teoria da arte que prometera a si mesma terminar antes dos cinquenta. A universidade exigia a disciplina, a disciplina exigia Camões, e Camões, para uma mulher que media o mundo em plantas baixas, exigia um tradutor. Foi assim que Helena assinou, entre um gole de café frio e uma reunião adiada, a sua primeira aula particular de literatura.
O anúncio estava pregado com duas fichas de xadrez no mural da livraria do bairro: Aulas de literatura portuguesa. Exames, concursos, prazos adiados. Doutorando, paciente com adultos que voltaram a estudar. Helena fotografou o número, esperou dois dias por orgulho e ligou na sexta, decidida a não explicar quem era nem por que a voz saiu mais baixa do que o combinado consigo mesma.
— Aula particular de literatura — atendeu uma voz de homem, o telefone um pouco longe, como se ele tivesse atendido no meio de qualquer outra coisa. — É para recuperação, não para doutorado — disse Helena, que odiava pedir ajuda com a mesma força com que precisava dela. — Ótimo — respondeu a voz. — O doutorado é o meu problema, não o seu.
Uma prova de recuperação
A sala nos fundos da livraria tinha duas cadeiras descompassadas, uma lâmpada de pescoço curvo e um mapa das rotas portuguesas do século dezesseis cobrindo a parede inteira. Diogo era mais novo do que a voz prometia: barba curta, óculos de aro fino, um caderno que não abriu uma única vez na primeira aula. Em vez de programa e bibliografia, propôs um trato. — A senhora não precisa decorar nada. Vai ler. Em voz alta, devagar, errando onde tiver que errar. Erro é o corpo entrando na casa errada e aprendendo a planta. — Nunca me chamaram de senhora numa sala com uma cadeira só — disse Helena. — Então a gente conserta isso antes de Camões — disse ele, e abriu o livro.
Começaram pela lírica clássica, porque Diogo dizia que o soneto é a planta hidráulica da poesia: tudo escondido dentro da parede, funcionando por pressão. Helena lia, gaguejava, repetia, e ao fim de cada verso ouvia o sim ou o não do professor — curto, sem dó, sem golpe. Foi na quinta aula que ela entendeu, de repente, a linha famosa: Amor é fogo que arde sem se ver. Não entendeu com a cabeça; entendeu com a garganta, onde a voz sumiu na hora exata, e Diogo, que escutava de olhos fechados, teve a decência de fingir que não percebeu.
Helena tinha quarenta e um anos, Diogo tinha trinta e oito anos — dois adultos plenamente crescidos, e nenhum dos dois devia desculpa a ninguém pelo que ia acontecendo devagar entre as duas cadeiras descompassadas. Acontecia em detalhes: o café que passou a chegar em duas canecas sem ninguém pedir; o mapa do século dezesseis ganhando uma seta desenhada a caneta — a rota da aula dela, brincava ele, a mais longa de todas; o silêncio que se esticava no último verso e que nenhum dos dois apressava. Nas quartas à noite, a livraria fechava, o mundo ficava do lado de fora, e a poesia portuguesa passava a exigir menos de Helena do que a presença de Diogo.
Havia regras não ditas, que os dois cumpriam como cumprem os adultos que se respeitam: nenhum toque além dos acidentais, nenhuma frase de dupla face, nenhum convite que não pudesse esperar pela quarta seguinte. Diogo passou a chegar vinte minutos mais cedo e a arrumar a mesa dela antes da aula. Helena passou a escolher blusas de gola alta no inverno e a odiar cada uma delas, porque o pescoço também mente.
Ela levava desenhos para as aulas. Era o jeito que encontrou de agradecer sem dizer obrigada: uma seção de casa reinterpretada em decassílabos, a fachada do escritório redesenhada como estância oitava, com o mar ao fundo porque Camões teria feito assim. Diogo guardava cada folha dentro do livro, como quem guarda flores entre páginas, e Helena fingia não ver o ritual, e os dois fingiam juntos, com o talento de quem já fez isso antes e sabia o preço de apressar.
Faltando duas semanas para a prova, caíam numa noite fria sobre Fernando Pessoa. Diogo escolheu Mensagem, abriu no poema do mar e empurrou o livro pela mesa. — Esse é seu. — Por quê? — Porque arquiteto entende de mar salgado: é tudo estrutura, pressão e paisagem. Helena leu. Chegou ao segundo verso e a voz falhou, como ele talvez soubesse que ia falhar: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal. A mão de Diogo estava na mesa, a dez centímetros da dela, imóvel, pedindo com a imobilidade. — Posso segurar a sua mão enquanto você lê? — Sim — disse Helena, olhando para ele e não para o livro. — Quero que você segure.
Ele segurou, e ela terminou o poema com a mão dele por baixo da sua, as duas imóveis como duas linhas de um projeto que não pode tremer. Quando o último verso acabou, nenhum dos dois soltou, e nenhum dos dois apertou. Foi Helena quem disse a regra, porque a regra precisava ser dita em voz alta. — Nada antes da prova. — A senhora Helena é pior que os jesuítas — disse Diogo, rindo baixo. — Aprovado — disse ela. E soltaram as mãos ao mesmo tempo, com o cuidado de quem devolve um instrumento afinado.
A estrofe que faltava
Na última quarta antes do exame, não leram nada novo. Repassaram rotas do mapa, riram de Vasco da Gama e da teimosia dos navegantes, e Helena contou pela primeira vez por que tinha largado a faculdade aos vinte e dois, e por que voltar aos quarenta custava mais coragem do que qualquer obra premiada. Diogo escutou sem interromper, e quando ela acabou, ele disse apenas: — A senhora não foi reprovada. Foi devolvida para o mar na hora certa.
A prova caiu num sábado de manhã. Helena entrou no auditório com canetas, régua e o poema do mar decorado na palma da mão, e saiu com a estranha leveza de quem entregou mais do que devia. O resultado veio numa quinta, às nove da noite, por e-mail: Literatura Portuguesa — Conceito: Aprovada, nota nove. Ela respondeu com uma mensagem de três palavras: — Posso cobrar amanhã. — Jantar em sua casa — respondeu ele. — Eu levo o vinho. — Jantar em minha casa — confirmou ela.
Diogo chegou com uma garrafa de vinho verde e o livro de Mensagem debaixo do braço, como quem apresenta testemunhas. Helena fez o escondidinho que a avó lhe ensinou e não se desculpou por servir em prato fundo, à mesa da cozinha, com a luz do abajur fazendo as sombras ficarem melhores do que os projetos dela. Comeram conversando de tudo e de nada, e o vinho não passou da primeira taça, porque nenhum dos dois queria a noite turva: queria a noite inteira, com todas as bordas visíveis.
Entre o prato e a sobremesa, Helena recitou de cor, sem aviso, o soneto do fogo que arde sem se ver. Errou uma palavra no segundo quarteto; Diogo corrigiu a palavra com a voz mais baixa da noite, e a correção durou mais do que qualquer aula que ele já dera. — Eu passava as aulas escrevendo mais lições do que precisava — confessou ele, girando a taça vazia. — Eu notava — disse ela. — Eu contava as semanas. — Perdemos as duas contas, então.
Foi Helena quem se levantou primeiro e quem estendeu a mão, e foi Diogo quem parou na soleira da sala para perguntar de novo, como quem refaz a pergunta fundamental. Cada passo foi perguntado e respondido — pode, quer, sim — e os dois combinaram, em voz alta e sem pressa, que qualquer um podia parar quando quisesse, sem dever explicação. — Combinado — disse Helena, com a palavra inteira, os dois acordados e sóbrios, a luz do abajur atrás dela como um cenário que a própria noite aprovou.
O que veio a seguir não precisa de narrador: precisou de tempo, de cuidado, de riso baixinho e de todas as perguntas respondidas, e precisou, sobretudo, de nenhuma pressa, porque os dois haviam esperado por semanas sem saber o nome do que esperavam. Do lado de fora, a cidade continuou existindo por conta própria, como as cidades fazem quando ninguém está olhando.
Muito mais tarde, na cozinha, dividindo a última fatia de queijo e o silêncio bom de quem terminou de dizer tudo, Helena contou que nunca acreditou em acasos com destino, mas acreditava em histórias: uma amiga do escritório jurava que bastou um jantar a dois para reacender quinze anos de casamento, e uma prima sua conheceu o marido numa aula de yoga das sete da manhã. — Histórias de gente adulta — disse Diogo, folheando o livro que tinha trazido. — São as únicas que a gente lê inteiras.
De manhã, o café passou com o livro aberto no balcão, marcando com um lápis de arquiteto a página do poema do mar. Helena matriculou-se na disciplina seguinte antes do almoço, porque um nove dá fome de dez. Quando contou a Diogo, ele ofereceu, solene, um novo trato: estudavam juntos, sem mensalidade, sem prazos, sem professores — dois leitores na mesma sala, duas canecas, um só mapa de rotas antigas na parede.
— E se eu errar? — perguntou ela, com a mão já na porta do escritório, atrasada, feliz. — Erro é o corpo entrando na casa errada e aprendendo a planta — repetiu Diogo, devolvendo a ela a própria frase de abril, agora com outro endereço. Helena desceu a escada do prédio cantarolando um decassílabo fora do compasso, com a sensação exata de quem encontrou, entre tanto sal e tanta lágrima, a estrofe que faltava.