Conto Erótico de Traição: O Risco Tinha Sabor de Mel
Existem traições que começam com um bilhete arrependido e acabam numa palavra de desculpa. A minha começou com o cheiro de cal virgem, mofo de século e o suor de um homem que não era meu marido. Este é um conto erótico de traição sobre o desejo que cresce em silêncio, devagar, até já não haver silêncio que o esconda.
A Cidade que Me Engoliu
Desci do ônibus em Ouro Preto numa terça-feira de maio, com a mala errada e o casaco demais. Henrique tinha me levado até a rodoviária em Belo Horizonte, beijou minha testa e disse para eu cuidar das pedras. Oito anos de casamento tinham refinado nele uma ternura calma, de quem já não precisa procurar nada. Eu amava aquela quietude. O problema é que a quietude, com o tempo, deixa a gente com fome de barulho.
O instituto me mandara para supervisionar a restauração da capela-mor de uma igreja do século dezoito. Duas semanas. Diária de hotel, prancheta, caderno de apontamentos. Eu esperava frio, silêncio profissional e noites de relatórios. Encontrei Bernardo Sá.
Ele estava de cócoras no adro quando cheguei, a examinar uma junta de pedra-sabão com a ponta dos dedos. Levantou-se devagar, como quem desmonta um pensamento, e me estendeu a mão direita. A esquerda ficou com uma marca de cal branca na coxa da calça.
— Letícia. — Sorri. — A arquiteta.
— O restaurador. — Ele apertou minha mão. A palma era áspera, quente, e o polegar demorou um segundo a mais do que devia. — Bem-vinda à obra. Cuidado onde pisa.
Foi só isso. Mas naquela noite, deitada no hotel com a lareira apagada, percebi que ainda sentia o polegar dele.
Dias de Pedra e Chuva
Bernardo tinha trinta e oito anos, era divorciado e falava das pedras como quem fala de gente. Mostrava-me as fissuras no alto-relevo dos anjos e dizia que cada rachadura contava uma história de terra molhada e tempo. Eu anotava tudo. Ele ria da minha letra miúda.
— Você desenha como tem medo do papel.
— Eu desenho como quem não quer errar.
— Então você vai errar. Pedra não perdoa quem tem medo.
Na terceira manhã, a chuva chegou e não foi embora. O telhado da capela pingava em dois pontos e o andaime ficou escorregadio. Trabalhamos lado a lado sob a lona, de joelhos na sarjeta, catalogando fragmentos. O cheiro dele misturava terra molhada, café forte e o âmbar de um sabonete rústico. Cada vez que me alcançava um caco, os dedos se roçavam. Eu não recuava. Ele também não.
Almoçávamos juntos numa vendinha da ladeira. Ele descascava laranja com a faca de pedreiro e me oferecia os gomos no papel pardo. Contou que tinha aprendido o ofício com o avô, em Congonhas. Contou do casamento que acabou porque ele gostava mais de pedra velha do que de conversa nova. Perguntou de Henrique. Eu respondi com duas frases curtas. Ele não insistiu. Mas o olhar dele, quando eu falava do meu marido, tinha uma sombra de quem já entendeu tudo.
Na quinta à noite, ele me convidou para ver o trabalho de iluminação na capela. A obra vazia, só nossa, com os holofotes provisórios apontados para os anjos de pedra-sabão. Bernardo subiu no andaime e ficou ali, recortado contra o teto dourado de talha rococó. Debaixo dele, eu parecia diminuta, e ele parecia pertencer àquele lugar como uma coluna pertence ao templo.
— Sabe por que os antigos faziam os anjos com seios de fora? — perguntou, apontando o alto-relevo.
— Para mostrar que o paraíso também tem corpo.
Ele sorriu e o sorriso desceu pelo andaime até mim. — Você entende mais do que devia, Letícia. É por isso que me assusta.
Voltei para o hotel com as mãos trêmulas e o peito apertado. Liguei para Henrique. Ele falou do consultório, de um paciente difícil, da torneira da cozinha que pingava. Foi boa conversa, morna, previsível. Quando desliguei, fui para o chuveiro e chorei debaixo da água quente sem motivo claro — ou com todos os motivos do mundo.
A Tempestade que Abriu Tudo
Na sexta à noite, a chuva virou temporal. O gerador da obra caiu e ficamos às escuras sob a lona, ouvindo o céu desabar sobre o telhado. Bernardo acendeu uma lanterna e o rosto dele apareceu recortado, o maxilar forte, os olhos escuros molhados de luz amarela.
— Você está tremendo.
— É o frio.
Era mentira. Ele sabia. Encostou a lanterna no chão, devagar, e ficou me olhando como quem decide se abre uma porta que não dá para fechar.
— Letícia.
— Não fala meu nome assim.
— Por quê?
— Porque se você falar, eu vou querer ouvir de novo.
Ele deu um passo. Eu não recuei. A mão dele subiu e parou no meu rosto, a palma áspera de cal e pedra contra a bochecha. Fechei os olhos. O temporal uivava lá fora e, dentro de mim, outra coisa uivava junto.
— Eu sei que você é casada — disse ele, a boca perto demais. — Eu sei que isso vai doer. Mas eu não consigo mais fingir que não estou te esperando desde a terça.
Beijei-o eu. Não foi um beijo bonito de filme. Foi desajeitado, com dente, com fome atrasada, com o gosto de café e de chuva. As mãos dele desceram para a minha cintura e me puxaram contra o peito, e eu senti o coração dele batendo no meu, rápido, tropeçando. O risco tinha sabor de mel. Se já leu o conto sobre o cheiro que ficou no lençol, sabe que a culpa costuma chegar só depois. Antes, só há o abismo do agora.
A Noite na Casa Antiga
Fomos para a casa que ele alugava, um sobrado colonial empoleirado na ladeira, com teto baixo e janelas de madeira que rangiam. Ele acendeu velas. A chuva continuava. Na parede, a sombra dele dançava grande enquanto me despia devagar, botão por botão, como quem restaura um afresco — com paciência e com reverência.
— Deixa eu te ver — pediu, e eu não soube se falava do corpo ou de outra coisa qualquer que eu escondia há anos.
O vestido caiu. O sutiã. A calcinha. Fiquei de pé na luz das velas, tremendo, e ele se ajoelhou. Beijou meu umbigo, o ossinho do quadril, a parte interna da coxa. O hálito quente me fez arquear. Segurei os cabelos dele, curtos, ásperos, e jurei que ia me lembrar da textura para sempre.
Levou-me para a cama de colchão duro e lençóis frios. Deitou-se por cima sem pressa, e o peso dele me ancorou como se eu fosse a pedra e ele o escultor. A pele dele cheirava a terra molhada e a homem. Beijou meu pescoço, a curva do seio, e a língua encontrou o mamilo devagar, em círculos, até eu soltar um som que não sabia que existia dentro de mim.
— Fala — murmurou contra a minha pele. — Fala o que você sente.
— Sinto que vou morrer se você parar.
Ele riu baixo, e o riso vibrou em mim. Desceu com a boca pelo meu ventre, abriu minhas pernas com os joelhos e me provou. A língua dele era demorada, exata, teimosa. Agarrei o lençol, arqueei as costas, e o prazer subiu em ondas até me quebrar pela primeira vez, com o nome dele na boca e o temporal lá fora testemunhando tudo.
Quando ele subiu, eu já não era a mesma. Ele entrou devagar, olhando-me nos olhos, e eu senti cada centímetro como uma resposta a uma pergunta que eu fizera em silêncio durante anos. Henrique era carinhoso, prestativo, seguro. Bernardo era perigo. E foi o perigo que me fez gemer alto, cravar as unhas nas costas dele, puxá-lo mais fundo.
— Mais — pedi. — Não sê gentil.
Ele obedeceu. O ritmo endureceu. A cama batia na parede de pedra e o som ecoava pelo sobrado antigo, e a mim já não me importava quem ouvia. Conheço quem cedeu à tentação numa única noite e nunca mais foi a mesma pessoa — uma só noite basta para partir uma vida ao meio. Eu estava a partir a minha de propósito, com as duas mãos, e a cada investida dele eu queria mais.
Vieram-se duas vezes antes de cairmos exaustos, ele de bruços sobre mim, suados, a respiração ainda irregular. A vela apagou-se. A chuva amainou. Ficamos em silêncio, ouvindo a casa rangeer, até eu perceber que estava a chorar.
A meio da madrugada acordei com a mão dele no meu quadril, a desenhar círculos preguiçosos. Não disse nada. Virei-me de frente para ele e o desejo voltou, mais silencioso, mais lento — o segundo gole de uma bebida que na primeira taça ainda assusta. Desta vez foi ele quem me pediu para ficar por cima. Sentei-me sobre ele, os cabelos soltos caindo no rosto dele, e guiei o ritmo enquanto ele segurava meus seios e murmurava meu nome como uma oração profana. A janela rangia. As velas tinham morrido. Só a luz do temporal iluminava os contornos do corpo dele por baixo de mim, e quando o prazer chegou pela terceira vez, foi tão fundo que mordi o próprio lábio para não gritar o nome errado.
Depois ficamos deitados de frente, testa com testa, a respirar no mesmo compasso. Ele passou o dedo pela marca que meus dentes tinham deixado no lábio dele e sorriu.
— Você morde como quem tem medo de soltar.
— Tenho.
— Foi pena? — perguntou ele, limpando-me as lágrimas com o polegar.
— Foi verdade. E dói.
A Manhã e o Silêncio
Acordei ao lado dele com a luz cinzenta de sábado entrando pela fresta da janela. Bernardo dormia de costas, o ombro largo cruzado de cicatrizes antigas de trabalho. Levantei-me sem barulho, vesti-me no escuro e saí.
Ouro Preto amanhecia úmido e dourado. A ladeira brilhava. Sentei-me no adro da igreja, onde nos conhecêramos, e liguei o telemóvel. Três mensagens de Henrique. Como vai a obra? Chuva aí também? Sinto sua falta. O coração apertou. Respondi com um emoji de coração e desliguei antes que ele sentisse o meu silêncio diferente.
As Pedras e o Que Ficou
Na segunda-feira voltamos à capela como se nada tivesse acontecido. Ele me alcançou um fragmento de anjo. Nossos dedos roçaram. Nenhum de nós recuou. Nenhum de nós disse o nome daquilo. Restaurávamos pedra rachada enquanto uma rachadura nova se abria entre o que eu era e o que tinha virado.
Nos últimos dias ele me perguntou, de madrugada, se eu ia voltar para Henrique. Eu disse que sim. Ele assentiu, como quem já sabia, e beijou minha mão com a mesma paciência de quem restaura.
— As pedras curam-se com o tempo — disse. — As pessoas, às vezes, não.
Voltei para casa numa terça-feira de maio, com a mala certa e o coração errado. Henrique esperava na rodoviária com flores. Cheirei-as e sorri. Debaixo do perfume dos lírios, ainda sentia a cal, a terra molhada e o mel de um risco que eu decidi correr.
Não contei a ninguém. Escrevo aqui porque há verdades que só cabem na página. E porque, quando fecho os olhos à noite, ainda oiço o temporal sobre o telhado antigo — e ainda ardo.