Conto Erótico de Casada: A Noite em que Cedi à Tentação
A casa cheia de silêncio
Se alguém me perguntasse quando começou este conto erótico, eu diria que não foi numa cama, mas num silêncio. Há um tipo de solidão que só existe dentro de um casamento, e eu vivia nela há sete anos. Rafael viajava duas, às vezes três semanas por mês. Quando voltava, trazia malas cheias de presentes e conversas pela metade. Beijava minha testa como quem cumpre uma obrigação e dormia de bruços antes de eu concluir a frase sobre o meu dia. A cama era grande demais para uma só pessoa, e eu já não lembrava a última vez em que alguém me tocara com vontade de me conhecer, e não de me despachar.
Eu tinha trinta e três anos e um casamento que cabia numa agenda de compromissos. Nada estava errado, propriamente — e talvez fosse esse o problema. Não havia brigas, não havia grosseria. Havia apenas um vazio morno, como uma lareira apagada que ninguém se dava ao trabalho de reacender.
Naquela noite de quinta-feira, São Paulo chorava. A chuva batia na janela da cozinha em fios grossos e diagonais, e eu decidi que não ficaria mais um instante entre quatro paredes ouvindo o tique-taque do relógio e o meu próprio ressentimento. Calcei uma bota, enfiei um casaco por cima do vestido preto que eu usava desde o escritório e desci a pé até a Charlot, a livraria de discos e vinhos que ficava duas quadras do meu apartamento. Era o meu refúgio: cheiro de papel velho, vinil encerado e tinto servido em copos de cristal grosso. Um lugar onde eu podia existir sem pedir licença.
A loja de discos
Ele estava debruçado sobre uma caixa de LPs na seção de jazz, e eu só o notei porque ri sozinho — uma risada grave, contida, dirigida à capa de um disco de Bill Evans. Quando me aproximei para ver o que achava tão engraçado, ele virou o rosto e o ar mudou de temperatura.
— Bernardo? — ouvi a minha própria voz, fina, surpresa, com dezessete anos de atraso.
Ele apertou os olhos como se ajustasse o foco de uma lente antiga. Depois abriu um sorriso devagar, o mesmo sorriso que me desmontara no cursinho pré-vestibial, quando ele sentava duas carteiras à minha frente e eu fingia não reparar.
— Marina Vasconcelos — disse ele, e pronunciou o meu nome inteiro como quem degusta uma palavra que guardou há muito tempo. — Não me diga que você ainda ouve Chet Baker olhando a chuva.
— Não mudei tanto assim — respondi, sentindo um calor estranho subir pelo peito. O tipo de calor que eu jurava esquecido.
Bernardo tinha agora cabelos com fios de prata nas têmporas, ombros largos por baixo de um casaco de camurça molhado e mãos que eu lembrava longas e elegantes. Advogado, solteiro, sem filhos — soube tudo isso em cinco minutos de conversa que escorregaram como água. Ele me chamou para um vinho na bancada da janela. Eu devia ter dito não. Aceitei antes que a parte sensata de mim acordasse.
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A química adiada
Nos quinze dias seguintes, Bernardo virou um hábito. Trocávamos mensagens em horários impossíveis — ele entre audiências, eu entre planilhas. Nada explícito, nada que eu pudesse classificar de traição e ainda assim dormir. Mas cada palavra carregava uma carga elétrica. Ele me perguntava o que eu estava ouvindo, e eu respondia com músicas que falavam por mim: Cassandra Wilson, Diana Krall, aquela versão de The Look of Love que parece feita para ser sussurrada.
No terceiro encontro, caminhamos pela Augusta sob a garoa e ele segurou a barra do meu casaco para me guiar entre a multidão. Não foi um toque de mão; foi pior e melhor do que isso — foi um toque que prometia. Senti o estômago despencar e uma umidade quente se instalar entre as pernas, tão antiga e tão nova que tive de parar de andar e respirar fundo.
— Você fugiu — disse ele, virando-se, com aquela voz grave que parecia feita para pronunciar o meu nome em quartos escuros.
— Não fugi. Só lembrei que sou casada.
— Eu sei — respondeu, sem soltar a barra do casaco. — Por isso estou perguntando com cuidado. Marina, eu não quero ser um erro que você cometa por descuido. Quero ser uma escolha.
Aquela frase me desarmou de um jeito que Rafael nunca conseguiria, nem se tentasse por mil anos. Não era o desejo o que me assustava — era a clareza. Bernardo não me queria como passatempo. Ele me queria inteira, e eu não me sentia inteira havia muito, muito tempo.
O conto de uma noite
Foi numa sexta-feira. Rafael ligou de Manaus para dizer que pegaria um voo no domingo, e a sua voz ao telefone soou tão distante quanto o Amazonas. Desliguei, olhei para o meu reflexo na janela escurecida e decidi que, pelo menos por uma noite, eu seria dona do próprio corpo.
O apartamento de Bernardo ficava num sobrado antigo em Pinheiros, com pé-direito alto, piso de madeira escura e luz apenas de abajur. Cheirava a café, a cedro, a homem. Ele abriu a porta e não disse nada: me puxou pela nuca e me beijou. Não um beijo de teste, não um beijo tímido — um beijo fundo, molhado, com a língua encontrando a minha como se voltasse a um lugar de que sentira falta a vida toda.
Eu gemi na sua boca, e o som surpreendeu a mim mesma. Há quanto tempo eu não gemia de verdade? As mãos dele desceram pela minha cintura, encontraram o zíper do vestido e o puxaram com uma firmeza sem pressa. O tecido escorregou e se acumulou nos meus pés. Fiquei de calcinha e sutiã, sentindo o ar da casa acariciar a pele arrepiada, e ele deu um passo atrás para me olhar.
— Você é ainda mais bonita do que eu imaginava — murmurou, e a sinceridade na voz dele fez meus mamilos endurecerem antes mesmo do toque.
Ele me conduziu até a cama desfeita. Deitou-me com cuidado, como quem depõe algo frágil sobre a mesa, e passou a boca pelo meu pescoço, pela clavícula, pela curva do seio que escapava do tecido. Senti o hálito quente e os lábios macios desenhando um caminho de loucura sobre a minha pele. Quando finalmente soltou o fecho do sutiã e tomou um mamilo na boca, chorei baixinho — de alívio, de saudade de mim mesma, de um prazer tão concentrado que doía de bom.
Bernardo conhecia o ritmo certo. Enquanto a boca ocupava meus seios, a mão livre desceu pelo meu ventre, contornou o umbigo e arrastou a calcinha para o lado com um polegar decidido. Os dedos encontraram a minha umidade e ele soltou um som rouco, quase animalesco, contra a minha pele.
— Meu Deus, Marina — respirou. — Você está tão molhada.
— É você — consegui dizer, a voz em farrapos. — Só pode ser você.
Ele desceu a boca pelo meu corpo, beijou a parte interna das coxas — essa pele fina e sensível que eu esquecia existir — e então a língua me encontrou no lugar certo, com a pressão certa, no ritmo exato que Rafael nunca teve paciência de descobrir. Agarrei os lençóis, arqueei as costas, senti o mundo se estreitar a um único ponto de luz. O orgasmo me tomou em ondas longas, e eu pronunciei o nome dele como uma prece.
Mas Bernardo não parou. Subiu o corpo sobre o meu, e senti a dureza dele contra a coxa. Vestiu a camisinha com mãos firmes e me olhou nos olhos antes de entrar — devagar, polegada por polegada, como se quisesse que eu sentisse cada parte daquele momento. Quando esteve totalmente dentro, ele parou. Encostou a testa na minha.
— Fica comigo — disse, e não era uma ordem, era um pedido.
— Fico — respondi, e encurvei os quadris para recebê-lo mais fundo.
O movimento começou lento e cresceu. Cada estocada acertava um ponto dentro de mim que eu nem sabia que existia, e os gemidos escapavam sem controle. Ele entrelaçou os dedos nos meus e prendeu minhas mãos acima da cabeça, e aquela rendição — estar presa, estar vista, ser desejada sem reservas — me levou a um segundo orgasmo que me fez gritar. Senti o corpo dele endurecer, o ritmo ficar irregular, e ele veio com um gemido prolongado, enterrando o rosto no meu pescoço, murmurando meu nome como se fosse a única palavra que importava no mundo.
O amanhecer sem culpa
Acordei com a luz cinzenta do sábado entrando pela fresta da cortina e o braço pesado de Bernardo sobre a minha cintura. Fiquei imóvel por um instante, esperando que a culpa chegasse — aquela punhalada gelada que eu imaginava sentir ao trair o marido. Ela não veio. No lugar, uma paz estranha, quente, quase absurda.
Bernardo acordou e me puxou para mais perto, beijando o topo da minha cabeça.
— Pensando muito? — perguntou, a voz rouca de sono.
— Pensando em como eu demorei tanto pra entender que morria de sede dentro de um barco — respondi, e ele riu baixinho contra o meu cabelo.
Não sei o que vai acontecer com o meu casamento. Sei que não voltarei a ser a mulher que entrava naquela livraria de discos só para fugir do tique-taque do relógio. Bernardo não me salvou — ninguém salva ninguém — mas ele me lembrou que eu existia por inteiro, que o meu corpo tinha uma voz própria e que o desejo não é um capricho, mas uma necessidade tão legítima quanto respirar.
Naquela manhã, levantei da cama, vesti a camisa dele por cima da calcinha e fui fazer café. A chuva tinha parado. São Paulo brilhava molhada e nova lá fora, e eu também. Se você chegou até aqui em busca de histórias que mexam com os sentidos, vale a pena conhecer os contos eróticos reunidos neste espaço — ou o início de tudo, na nossa página de boas-vindas. E se a minha noite ecoou a sua, talvez a sua próxima escolha já esteja feita há tempo. Só faltava coragem.