Contos de Vizinhos

O Perfume do Oitavo Andar

O verano chegara a Belo Horizonte com uma força descomunal. O calor que subia do asfalto parecia um corpo vivo, envolvente, quase obsceno em sua insistência. Foi nesse calor que Inez apareceu na minha vida — ou melhor, na varanda ao lado.

Ela se mudou para o apartamento 802 numa terça-feira de janeiro. Eu a vi do meu 804, carregando caixas com um vestido leve que ondulava contra as coxas a cada passo. Morena, cabelos na altura dos ombros, um sorriso que parecia guardar segredos. Pensei em me oferecer para ajudar. Em vez disso, fiquei parado como um idiota, segurando uma xícara de café que já estava frio.

O Primeiro Encontro

Três dias depois, a encontrei no elevador. O espaço era pequeno demais para dois estranhos e um silêncio constrangedente. Ela perfumeava de jasmim e baunilha, uma mistura que pareceu grudar no fundo da minha garganta.

— Oitavo andar? — perguntei, olhando para os botões já acesos.

— Oitavo — respondeu, com a voz levemente rouca. — Parece que somos quase vizinhos.

— Quase — concordei, e o elevador tremeu de leve, como se o prédio inteiro quisesse conspirar a nosso favor.

Naquele mesmo dia, à noite, ouvi música pelo lado de fora. Um samba antigo, desses de vinil, que parecia vir de outra época. Fui até a varanda. Ela estava ali, sentada numa cadeira de praia, com uma taça de vinho tinto e os pés descalços apoiados no corrimão. A luz âmbar do abajur do seu apartamento delineava seu perfil com uma delicadeza quase cruel.

— Boa noite — disse, sem se virar.

— Como sabia que eu estava aqui?

— Senti — respondeu, finalmente me olhando por cima do ombro. — A varanda fica mais leve quando tem alguém ocupando o espaço ao lado.

Ficamos ali, conversando por mais de uma hora, separados apenas por uma mureta baixa de concreto que mal chegava à cintura. Descobri que ela se chamava Inez, era arquiteta, recém-saída de um relacionamento longo e tinha vindo para a cidade recomeçar. Eu disse que era escritor — meio verdadeiro, meio mentira — e que vivia sozinho havia dois anos. Quando a noite esfriou e ela se despediu com um aceno lento da mão, percebi que meus dedos tremiam.

A Chuva de Fevereiro

As semanas seguintes foram um exercício de contenção. Inez e eu desenvolvemos uma rotina: café da manhã na varanda, conversas ao entardecer, mensagens curtas pelo WhatsApp que eu relia obsessivamente. Havia uma tensão crescendo entre nós, densa e elétrica como o ar antes de uma tempestade.

Foi numa noite de fevereiro que a tempestade veio — literalmente. A chuva caiu com uma fúria que apagou a luz de todo o bairro. Ouvi uma batida na porta e, ao abrir, encontrei Inez segurando uma vela acesa, com os cabelos úmidos grudados no rosto e uma camiseta grande que não escondia os mamilos endurecidos pelo frio repentino.

— Acabou a luz no meu apartamento e as velas estão no fundo de uma caixa — disse, com um sorriso envergonhado. — Você tem uma lanterna que eu possa emprestar?

— Entra — respondi, e ela entrou, e o apartamento pareceu encolher ao redor dela.

Acendi todas as velas que tinha. A luz trêmula dançava nas paredes, criando sombras que pareciam ter vida própria. Sentamos no sofá, lado a lado, com dois copos de vinho que eu tinha aberto para disfarçar o nervosismo. A chuva batia nas janelas num ritmo que poderia ser música.

— Você sabia — disse ela, virando o copo entre os dedos — que as piores tempestades são as que a gente não vê chegar?

— É verdade.

— Eu não vim aqui só por uma lanterna, Rafael.

O silêncio que se seguiu durou talvez três segundos, mas pareceu uma eternidade. Então ela largou o copo na mesa e se virou para mim, e seus olhos escuros brilhavam à luz das velas com uma mistura de coragem e vulnerabilidade que me fez perder o fôlego.

Puxei-a pela nuca e a beijei. Não foi um beijo gentil de primeiro encontro — foi profundo, faminto, como se estivéssemos esperando por aquele momento desde a primeira vez que dividimos um elevador. A língua dela encontrou a minha num movimento lento e delicioso, e ela gemeu baixinho, um som que vibrou entre meus lábios e desceu direto para o meu baixo ventre.

— Espera — sussurrou, afastando-se. Por um segundo, meu coração afundou. Então ela se levantou, segurou minha mão e me guiou até o quarto, onde as velas projetavam sombras sensuais nas paredes.

Corpos e Silêncios

Quando a tirei da camiseta molhada, descobri que Inez era ainda mais bonita do que eu tinha imaginado nas noites insones. Seus seios eram pequenos e firmes, com mamilos cor de vinho, e a pele da barriga era macia como cetim sob meus dedos. Ela arqueou quando minha boca encontrou seu pescoço, mordiscando de leve, descendo pelo colo com uma lentidão calculada.

— Mais devagar — pediu, a voz rouca. — Quero sentir tudo.

Fiz como ela pediu. Tracei uma linha de beijos molhados desde a curva do pescoço até o vale entre os seios, contornando-os com a língua, evitando os mamilos até que ela gemeu de impaciência. Quando finalmente os tomei na boca, um por um, ela cravou as unhas nos meus ombros e puxou meu corpo contra o seu.

Eu a deitei na cama e me curvei sobre ela, beijando a linha do abdômen, contornando o umbigo, sentindo a pele arrepiar sob meus lábios. Quando finalmente tirei sua calcinha — renda preta, úmida — e a toquei pela primeira vez, ela agarrou o lençol com as duas mãos e soltou um gemido que foi quase um soluço.

— Assim — sussurrou. — Assim, Rafael.

A explorei com a boca e as mãos, aprendendo cada curva, cada ponto que a fazia tremer. O gosto dela era quente e salgado, e quando encontrei o ritmo certo, as coxas dela se fecharam ao redor da minha cabeça e o corpo inteiro tremeu num orgasmo que rasgou o silêncio do quarto como um raio.

— Vem cá — ela puxou, e eu subí sobre ela, e quando finalmente entrei, ambos soltamos o ar como se estivéssemos prendendo a respiração havia semanas.

Não foi pressa. Foi urgência lenta, profunda, quase religiosa. Movíamo-nos juntos num ritmo que a chuva ditava — ora frenético, ora preguiçoso. Ela enlaçou as pernas ao redor da minha cintura e me puxou mais fundo, e seus olhos se arregalaram a cada investida, a boca entreaberta num misto de prazer e espanto.

— Me olha — pediu, e eu a olhei, e foi como afogar em água escura e morna.

Quando o segundo orgasmo a atingiu, ela cravou os dentes no meu ombro para não gritar, e o espasmo do corpo dela me arrastou junto. Vim com uma intensidade que me deixou tonto, cravado dentro dela, tremendo como uma folha no vento.

Depois, ficamos deitados em silêncio, ouvindo a chuva amainar. Ela tinha a cabeça no meu peito e traçava círculos preguiçosos com a ponta do dedo na minha pele.

— Isso foi… — comecei.

— Eu sei — cortou, com um sorriso na voz.

O Depois

A luz voltou às três da manhã, e as velas ficaram acesas mesmo assim. Fizemos amor de novo, dessa vez mais devagar, quase litúrgico, como se quiséssemos gravar cada sensação na memória. Pela manhã, acordei com o cheiro de café e a encontrei na cozinha, usando apenas minha camisa, com os cabelos revoltos e um olhar que era ao mesmo tempo tímido e safado.

— Bom dia, vizinho — disse, estendendo uma xícara.

— Bom dia, Inez.

Ela se sentou na minha frente, naquela mesma camisa que mal cobria suas coxas, e me contou, entre goles de café, que não queria nada sério. Que tinha acabado de sair de um casamento de sete anos e que precisava de leveza. Eu concordei — também não queria nada sério. Mentira. Eu já queria tudo.

Os dias que se seguiram foram um delírio sensual disfarçado de normalidade. De dia, éramos vizinhos educados que se cumprimentavam no elevador. À noite, ela batia na minha porta — ou eu na dela — e o prédio inteiro desaparecia. Aprendi que Inez gostava de ser dominada gentilmente, que gemia mais alto quando puxava seus cabelos, que tinha um ponto atrás da orelha que a deixava louca quando mordiscado. Ela aprendeu que eu gostava de ser provocado, que suas unhas nas costas me enlouqueciam, que ver o prazer no rosto dela era mais intoxicante que qualquer bebida.

Numa dessas noites, deitados no chão da sala dela sobre um edredom, com o facho de luz do poste entrando pela janela, ela se debruçou sobre mim e disse:

— Você sabe o que é mais perigoso?

— O quê?

— Quando o sem-compromisso começa a ter significado.

Eu não respondi. Apenas a puxei para cima de mim e a beijei longamente, tentando colocar nas palavras que não dizia tudo aquilo que sentia.

Março e o Medo

Em março, algo mudou. Inez começou a chegar tarde, a cancelar encontros, a ficar distante na varanda. Quando perguntava se estava tudo bem, ela respondia com um sorriso curto e mudava de assunto. A tensão que antes era sexual tornou-se outra coisa — uma ansiedade surda que me mordia por dentro.

Numa sexta-feira chuvosa — outro temporal, como se o universo gostasse de rimas —, encontrei-a na varanda, em prantos. Sentei ao lado sem dizer nada, e ela encostou a cabeça no meu ombro.

— Meu ex apareceu — disse, depois de um longo silêncio. — Quer reconciliar.

Algo gelado desceu pelo meu peito. Tudo que eu queria dizer — que ela era a melhor coisa que tinha me acontecido em anos, que aquele apartamento não tinha significado antes dela, que eu acordava todos os dias esperando ouvir o barulho da porta dela se abrindo — ficou preso na garganta.

— E o que você quer? — perguntei, com a voz controlada.

— Eu não sei, Rafael. É tudo tão confuso.

— Eu posso ser claro — disse, e o coração batia tão forte que ela provavelmente podia ouvir. — Eu não quero que você vá.

Ela se virou para mim, os olhos marejados, e me pareceu que via algo no meu rosto que a surpreendeu. Então se inclinou e me beijou — não com a fome das primeiras vezes, mas com uma ternura que me partiu o peito.

— Me dá tempo — pediu.

— Todo o tempo que você precisar.

A Decisão

Duas semanas depois, numa manhã de sol, acordei com o cheiro de pão fresco e café. Na minha cozinha — não na dela, na minha — Inez preparava o café da manhã usando uma das minhas camisas. Quando me viu, sorriu daquele jeito que me fez perder o chão desde o primeiro dia.

— Decidi — disse, simplesmente.

— Decidiu o quê?

— Que não quero voltar. Que quero ficar. — Fez uma pausa, mordendo o lábio inferior. — Que quero ficar aqui. Com você. No oitavo andar. Nessa varanda onde tudo começou.

Levantei, cruzei a cozinha e a tomei nos braços. Ela riu — uma risada clara, cristalina, que pareceu varrer as semanas de incerteza. E quando a beijei, senti pela primeira vez que não era desejo apenas. Era algo mais fundo, mais antigo, mais inevitável.

— Deixa eu fazer uma coisa — disse ela, se afastando de leve.

— O quê?

— Eu quero te mostrar como é quando não é mais só corpo. Quando é tudo.

E me levou pela mão até o quarto, e dessa vez foi diferente. Não menos intenso — talvez mais. Mas cada toque carregava um peso novo, uma promessa. Cada beijo era uma resposta. Cada gemido era uma confirmação. E quando finalmente chegamos juntos, dessa vez olhando nos olhos um do outro, entendi o que ela queria dizer.

Há desejos que passam. Há corpos que se encontram e se despedem. Mas há coisas — raras, terríveis, belas — que começam como desejo e se transformam em destino. Inez entrou na minha vida por acaso, pela porta de um elevador. Mas ficou porque quis. E eu a deixei ficar porque, desde a primeira varanda compartilhada, já não sabia imaginar o mundo sem o perfume de jasmim e baunilha preenchendo o oitavo andar.

Ainda hoje, quando chove, a puxo para perto e sussurro: vem cá. E ela vem. Sempre vem.

Fim

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