A Chuva que Devolveu Tomás: Conto Romântico de Reencontro
A cena aconteceu numa livraria de segunda mão, no Bairro Alto, sob uma chuva de outubro. Bárbara não sabia ainda que aquele seria o reencontro, porque tinha deixado de esperar por reencontros há muito tempo. Estava de costas para a porta, os olhos presos a uma edição velha de um livro de poemas, quando ouviu uma voz masculina perguntar ao balcão por um ensaio esgotado. Reconheceu-a antes de virar a cabeça: o timbre grave, a cadência do Norte que nunca se apagou, a pausa que ele deixava antes das palavras importantes. Doze anos cabiam numa única frase.
Bárbara tinha trinta e quatro anos e trabalhava como editora numa editora independente. Tinha aprendido, à força de manuscritos alheios, que as histórias de regresso raramente acabam bem para quem ainda transporta a ferida original. Por isso ficou parada, o livro fechado contra o peito, esperando que fosse ele o primeiro a fechar a distância. Virou-se devagar, como quem receia assustar um pássaro, e lá estava Tomás, com a mochila encharcada ao ombro e os cabelos colados à testa, mais magro do que ela recordava, com rugas novas em torno dos olhos.
Ele demorou três segundos a registá-la, e nesse intervalo Bárbara viu desfilarem pelo rosto dele tudo o que tinham deixado por dizer: a noite em Coimbra, a viagem que ele fizera sozinho, a carta que ela nunca chegara a mandar. Depois ele sorriu, e foi como se a livraria inteira puxasse o ar.
— Bárbara — disse ele, só o nome, e foi suficiente.
Ela deixou o livro sobre a mesa mais próxima e deu dois passos na direcção dele. Não o abraçou, ainda não. Queria que cada gesto fosse deliberado, uma escolha que ambos assinassem. Era um princípio que aprendera tarde: o desejo só é justo quando se pode desfazer. Por isso parou a meio do caminho e deixou que fosse ele a terminar a distância. Pensou, sem nenhuma razão prática, que aquele era o tipo de história que costuma aparecer nas prateleiras dos contos românticos, só que na vida real ninguém garante o final feliz.
A Chuva que Devolveu Tomás
Tomás completara trinta e cinco anos no inverno anterior e tinha regressado a Portugal depois de uma década a traduzir poetas sul-americanos em São Paulo. Voltava mais cauteloso, disse ele, e Bárbara reparou que era verdade: a maneira como pousava as mãos sobre a mesa, como escolhia os verbos com cuidado excessivo, como mantinha sempre uma fresta de fuga escondida nas frases. Tinham sido amigos em Coimbra, quase outra coisa, e esse quase tinha sido a ruína de ambos. Uma noite de Maio, um festival de estudantes, um beijo interrompido por um telefonema que o obrigara a sair. Ele prometera voltar na manhã seguinte. Não voltara. Não por maldade, mas porque a vida, que tem dessas decisões obscenas, decidira por ele naquela hora.
Agora estavam ali, sentados num banco de madeira junto à janela, a beber um café que a dona da livraria improvisara num bule antigo, e Bárbara percebeu que o tempo não tinha resolvido nada. Tinha só arquivado. O desejo continuava lá, intacto, como um manuscrito que ninguém tivera coragem de publicar. Sentia-o nos dedos, na boca seca, na forma como evitava o olhar dele sempre que ele se inclinava para a frente.
— Ainda escreves? — perguntou ele.
— Edito. Editoro os outros, que é uma forma elegante de não me expor.
— Cobardia elegante, queres dizer.
Ela riu-se, e o riso surpreendeu-a pela facilidade. Há pessoas que se reencontram e descobrem que a intimidade é um músculo que atrofia; com Tomás era o contrário: bastava um café e uma piada antiga para o músculo acordar inteiro. Bárbara percebeu, com um susto discreto, que estava a flertar. E que ele também, porque começara a falar mais baixo, a fazer pausas maiores, a deixar cair os olhos para os lábios dela sem pedir licença — mas sempre com uma pergunta silenciosa no olhar, como se aguardasse autorização para cada passo.
A chuva batia na montra como se tentasse entrar a força. A dona da livraria, uma mulher de óculos grossos e sorriso discreto, baixou a persiana até meio e acendeu mais uma lâmpada, como se soubesse que aquela conversa ia demorar e quisesse dar-lhe o cenário que merecia.
O Café que Não Acabou
— Quero ser honesta contigo — disse Bárbara, de repente, sem saber de onde vinha a coragem. — Passei doze anos a arrepender-me de não te ter pedido para ficares naquela noite.
Tomás largou a chávena. O silêncio entre eles ficou tão cheio que parecia possível tocá-lo.
— Eu também — disse ele. — Mas era mais novo, e mais estúpido. Achava que o que eu sentia ia passar com a distância. Não passou. Passei uma década a traduzir versos de saudade alheia para não ter de escrever os meus.
Ela estendeu a mão, palma para cima, sobre o banco entre os dois. Um convite, não uma ordem. Ele olhou para a mão durante um momento longo, como quem mede o peso de uma decisão irreversível, e depois pousou os dedos sobre os dela. Bárbara sentiu o calor subir pelo braço. Nenhum dos dois falou. Lá fora a chuva apertava, e a livraria tornou-se uma bolha fora do tempo, daquelas que mais tarde se recordam como se pertencessem a outra vida.
Conversaram sobre tudo e sobre nada: sobre o pai dele, que adoecera no ano anterior; sobre o livro que ela editava, uma novela sobre dois estranhos presos num elevador durante um blecaute — e Bárbara pensou, sem o dizer, que aquela história era quase parente das que se encontram nas histórias curiosas de encontros improváveis, só que a dela estava a acontecer de verdade, num dia de outubro, sob uma lâmpada amarela. Falaram do que tinham perdido e do que ainda havia tempo para não perder, e em cada frase a tensão crescia, lenta, controlada, como a maré que sobe sem avisar quem está de costas voltadas para o mar.
Tomás aproximou-se um centímetro de cada vez, como se medisse o espaço que ela lhe concedia. Bárbara não recuou. Quando ele finalmente perguntou, em voz baixa, se podia beijá-la, ela respondeu que sim, e só depois ele o fez. Foi um beijo breve, de teste, seguido de outro mais demorado, e Bárbara sentiu o chão sob os pés firme pela primeira vez em muitos anos. Separaram-se com a testa encostada, a respirar o ar um do outro, e ela percebeu que aquele era um daqueles momentos que se escolhem de propósito para não se arrepender depois.
O Sim que Abriu a Porta
A dona da livraria anunciou, com delicadeza, que ia fechar. Tomás pagou os cafés e ajudou-a a baixar a persiana. Bárbara ficou junto à porta, o casaco sobre o braço, sem saber se aquela despedida ia ser mais uma noite de Maio interrompida. Foi então que ele disse, com a simplicidade de quem aprendeu a dizer as coisas a tempo:
— Não quero ir embora outra vez sem te dizer o que quero. Quero ir contigo para onde fores, se tu quiseres que eu vá. E se não quiseres, percebo, e fica tudo como está. Sem mágoa, sem cobrança.
Bárbara disse sim em voz alta, e Tomás só avançou porque ela disse sim. Ambos eram adultos e sabiam que aquela escolha pertencia apenas a eles dois. Não havia álcool, não havia pressão, não havia promessa de amanhã. Havia só aquele sim, dito à porta de uma livraria de segunda mão, com a chuva a escorrer pela montra como uma cortina de água.
Caminharam juntos pela Rua do Norte acima, os ombros roçando-se a cada passo, até ao apartamento dela, num terceiro andar sem elevador. Bárbara subiu os degraus à frente e, no patamar, voltou-se para ele. Havia uma pergunta no ar que ela não precisava de fazer em voz alta; ele respondeu-lhe na mesma.
— Se em qualquer momento mudares de ideias, diz-me, e eu saio. A qualquer instante, sem explicações.
— E tu também — disse ela. — Se for contigo, quero que seja porque ambos queremos, não por inércia nem por saudade. A qualquer hora, a palavra é nossa.
Ele assentiu. Entraram. O que se seguiu pertenceu-lhes só a eles, e a ninguém mais: a forma como fecharam a porta com cuidado, como a luz ficou baixa de propósito, como o silêncio cedeu lugar a uma intimidade demorada e atenta, feita de pausas longas, de carícias anunciadas antes de acontecerem, de permissões pedidas e dadas em voz baixa. Foi lento, e bom, e interrompido quantas vezes fosse preciso para que nenhum dos dois perdesse o direito de dizer basta e ser ouvido sem questionamento.
Ao amanhecer, Bárbara acordou com o braço dele sobre a cintura e a chuva, finalmente, mais mansa lá fora. Não se mexeu durante algum tempo. Queria guardar aquele instante antes que a manhã o apagasse com a sua luz prática. Depois virou-se e encontrou-o acordado, a olhar para ela com a expressão de quem acabou de perceber uma coisa importante demais para dizer em voz alta.
— Fico? — perguntou ele, em fio de voz.
— Fica — disse ela. — Mas só se quiseres. E se um dia não quiseres mais, diz-me, que eu prometo ouvir sem mágoa.
Ele beijou-lhe a testa, devagar, e foi assim, sem grande discurso nem juramento, que uma história interrompida há doze anos recomeçou numa manhã de outubro, num terceiro andar do Bairro Alto, com o cheiro a café e a papel velho e a promessa discreta, renovável e silenciosa, de que o sim de um só vale enquanto o sim do outro também durar.