Contos Eróticos

O Reencontro na Livraria Durante a Chuva de Agosto

O cheiro de papel velho era a primeira coisa que Helena sentia toda manhã ao abrir a livraria. Depois vinha o café — sempre o mesmo blend que ela preparava na cozinha nos fundos, forte o suficiente para despertar qualquer fantasma adormecido entre as prateleiras. A Livraria Aurora ficava numa esquina estreita da Rua das Flores, entre uma floricultura sem clientes e uma padaria com fila eterna. Doze metros quadrados de livros empilhados até o teto, uma poltrona de couro gasto e uma janela que dava para a calçada molhada.

Agosto daquele ano chegou com chuvas teimosas, daquelas que nunca decidem se ficam ou se vão. Helena passava os dias entre estantes e clientes raros, organizando coleções que ninguém comprava e servindo cafés para pessoas que entravam apenas para se abrigar. Era uma vida pequena, silenciosa, e ela tinha aprendido a gostar do tamanho dela — até o sino da porta tocar numa terça-feira e trazer de volta tudo o que ela julgava enterrado.

Quando se virou, viu um homem encharcado parado na entrada, segurando um guarda-chuva quebrado e um sorriso que ela conhecia melhor do que qualquer livro naquela estante.

— Tomás.

O nome escapou antes que ela pudesse decidir se queria dizê-lo em voz alta. Ele estava mais velho, com linhas ao redor dos olhos que não existiam antes e o cabelo cortado mais curto, mas era ele — o mesmo Tomás que tinha dividido quatro anos de biblioteca universitária, cigarros no telhado do prédio de Letras e promessas que nenhum dos dois cumpriu. Helena sentiu o peito apertar daquele jeito específico que só um reencontro romântico provoca, como se a vida fosse um conto romântico que ela não tinha pedido para escrever.

— Eu não sabia que a livraria era sua — ele disse, e a voz era idêntica, só que mais grave.

— É minha há sete anos.

Ela não perguntou como ele tinha chegado ali, nem por que demorou tanto. Algumas perguntas são melhores guardadas para depois do segundo café, quando as defesas têm tempo de descer. Em vez disso, Helena apontou para a poltrona e disse que o café estava pronto, como se doze anos de ausência fossem apenas uma pausa longa numa conversa que nunca tinha acabado de verdade.

Doze Anos de Silêncio

Tomás pediu um café e sentou na poltrona de couro como se soubesse que aquele sempre tinha sido o lugar dele. Helena serviu duas xícaras e ficou no banquinho atrás do balcão, mantendo a distância cômoda de uma madeira entre eles. A chuva aumentou lá fora, batendo na vitrine com a teimosia de quem recusa ir embora.

— Eu procurei este endereço na internet — ele disse. — Vi que a livraria existia. Aí vi o nome.

— E demorou doze anos para aparecer?

— Eu tive medo.

Helena quase riu. Quase. Mas havia algo no modo como ele pronunciou a palavra “medo” que a fez engolir o riso. Não era a vergonha de quem admite uma fraqueza pequena — era a honestidade nua de quem carregou um peso durante tanto tempo que já não lembrava como era viver sem ele.

— Medo de quê?

— De descobrir que você me esqueceu.

A chuva continuou. O café esfriou nas xícaras. E Helena percebeu, com uma clareza que doía, que não tinha esquecido nada — nem o jeito como ele segurava a xícara com as duas mãos, nem a maneira como desviava o olhar quando dizia algo importante, nem a noite de formatura em que ficaram sentados na escada da faculdade até o sol nascer, tão perto e tão covardes que nenhum dos dois fez o que ambos sabiam que queriam fazer.

Doze anos. Ele tinha ido para São Paulo fazer mestrado, depois doutorado, depois uma vida que Helena acompanhava de longe pelas redes sociais — sempre de longe, sempre com a tela apagada antes que ele pudesse perceber que ela ainda olhava. Casamentos que não deram certo, empregos que terminaram, cidades que não ficaram. Nenhum dos dois tinha sido feliz do jeito que planejaram, e talvez fosse essa a verdade mais difícil de admitir naquela poltrona: que o silêncio entre eles não tinha sido indiferença, tinha sido covardia dos dois lados.

Ele voltou na quarta-feira. E na quinta. Na sexta, trouxe um livro — um exemplar gasto de um romance que Helena já tinha lido três vezes, mas fingiu que não, porque o que importava não era o volume e sim o gesto de atravessar a chuva para entregá-lo.

— Para a sua coleção — ele disse, colocando o livro no balcão.

— Você não precisa me dar presentes para ter café de graça.

— Não é um presente. É um pretexto.

Ela percebeu que ele estava flertando. Não do jeito desastrado dos vinte e poucos anos, mas com a intenção calma de quem sabe o que quer e não tem pressa de agarrar. Tomás tinha trinta e cinco anos e uma cicatriz na mão esquerda que Helena não reconhecia. Ele notou o olhar dela pousar ali.

— Cirurgia no pulso. Há três anos. Escorreguei no banho como um idiota.

— Você sempre foi desastrado.

— Algumas coisas não mudam.

Outras, porém, mudaram todas. O Tomás da faculdade era ansioso, inconstante, incapaz de ficar parado na mesma cadeira por mais de dez minutos. Este Tomás permanecia na poltrona com uma quietude que Helena não sabia se era maturidade ou cansaço de quem já percorreu caminhos longos demais. Ele tinha aceitado uma posição no departamento de Literatura da universidade — a mesma universidade onde se conheceram — e estava morando num apartamento alugado a três quadras dali.

— Você voltou por mim? — Helena perguntou, e imediatamente se arrependeu, porque a pergunta era grande demais e não havia como recolhê-la depois de pronunciada.

Tomás não respondeu de imediato. Terminou o café com calma. Colocou a xícara no pires com um cuidado quase cerimonial.

— Eu voltei porque esta é a minha cidade. Mas eu procurei a livraria porque é o seu lugar. E eu continuei voltando porque toda vez que eu abro aquela porta e o sino toca, eu vejo você se virar, e por meio segundo você tem a mesma expressão que tinha aos vinte e dois. Eu preciso desse meio segundo.

A Noite em Que Ficou

Na quarta semana de agosto, a chuva veio forte demais para qualquer um ir embora. Eram vinte e uma horas e a rua estava inundada, a água subindo pelo meio-fio como se a cidade estivesse afundando em câmera lenta. Tomás olhou pela vitrine e depois olhou para Helena.

— Eu posso ir. Se você quiser.

— Você não pode ir. A rua está submersa.

— Então eu fico.

— Você fica.

A palavra pairou no ar entre eles como uma promessa que nenhum dos dois tinha coragem de nomear. A chuva batia na vitrine com uma intensidade nova, como se o céu tivesse decidido lavar a cidade de uma vez por todas. Dentro da livraria, o abajur projetava sombras longas sobre as capas dos livros, e Helena sentiu que o espaço que sempre achou pequeno tinha encolhido — não em metros quadrados, mas na distância entre ela e Tomás.

Helena fechou a livraria — chave na porta, luzes baixas, só o abajur da poltrona aceso. A chuva transformava a vitrine num espelho líquido, e dentro daquela bolha de luz amarela eles estavam finalmente sozinhos com doze anos de palavras não ditas.

Tomás se levantou da poltrona. Helena permaneceu sentada no banquinho. Ele se aproximou devagar, parando a um passo de distância — perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro dele, café e papel e algo que era só dele, longe o suficiente para que ela pudesse dizer não sem constrangimento.

— Posso? — ele perguntou, e a palavra carregava o peso de uma década inteira de hesitação.

Helena olhou para ele. Os olhos de Tomás estavam esperando, não exigindo. Havia no rosto dele uma vulnerabilidade que ela nunca tinha visto — não na formatura, não nas noites de biblioteca, não em nenhum dos milhares de momentos em que estiveram a um gesto de se escolherem e se omitiram.

— Pode — ela disse.

Ele tocou o rosto dela com a ponta dos dedos. Apenas isso, no início. A ponta dos dedos traçando a linha do maxilar como se estivesse memorizando um mapa que tinha esquecido. Helena fechou os olhos. A mão dele estava morna e levemente áspera — a mão de quem escreve à caneta, de quem vira páginas o dia inteiro.

— Se em qualquer momento você quiser que eu pare — ele disse —, eu paro. Sem perguntas, sem mágoa, sem exigir explicação.

— Eu sei — ela respondeu, e era verdade, porque conhecia Tomás há doze anos e sabia que ele era o tipo de homem que respeitaria um não com a mesma gravidade com que respeitaria um sim.

O beijo veio depois, lento, com a delicadeza de quem finalmente faz algo que deveria ter feito há muito tempo e teme partir o instante. Helena sentiu a mão dele deslizar para a nuca, os dedos entrelaçando-se no cabelo dela, e o calor que subiu pelo peito não era apenas desejo — era reconhecimento, era o corpo dizendo “era você” depois de doze anos de procurar em lugares errados.

— Eu esperei tanto por isso — ela murmurou.

— Eu também. Mas eu não quero ter pressa.

— Então não tenha.

Tomás se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela. Havia nos lábios dele um sorriso que não era de vitória — era de alívio, de quem finalmente larga uma mala que carregou por tempo demais.

— Eu não quero só uma noite, Helena. Eu não voltei para isso. Eu quero tempo. Quero te conhecer de novo. Quero saber quem você é agora, não quem você era aos vinte e dois.

— Então me conheça.

Helena se levantou do banquinho. Tomás não se mexeu — esperou que ela viesse até ele, e quando ela veio, foi ela quem o beijou desta vez, com uma decisão que não deixava margem para dúvidas. Ele respondeu com as mãos na cintura dela, firme sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo e nenhuma intenção de desperdiçá-lo.

Foram até a cozinha nos fundos, onde o café ainda cheirava na panela e a luz do corredor era quente e baixa. Helena encostou-se à parede e puxou Tomás pela gola da camisa, e por um instante ficaram apenas respirando juntos, testas coladas, o silêncio repleto de tudo o que não precisava ser dito. Como nos melhores contos eróticos que Helena já lera, o que importava não era o final, mas a coragem de virar a página.

— Se for rápido demais para você — Helena disse —, me avisa também.

— Combinado.

E o que aconteceu depois ficou entre eles dois, a chuva e os livros. Não havia plateia, não havia registro — apenas duas pessoas adultas que tinham demorado doze anos para perceber que o que sempre procuraram estava na esquina da Rua das Flores, atrás de um balcão de livraria. Era um conto erótico sem capítulos de vergonha, e o resto pertencia à intimidade, que sabe guardar seus segredos melhor do que qualquer livro fechado.

Quando a chuva parou, quase à meia-noite, Helena acendeu um cigarro na varanda dos fundos e Tomás ficou ao lado, ombro colado no dela. A cidade brilhava molhada e vazia, e em algum lugar acima dos prédios uma lua cheia tentava atravessar as nuvens remanescentes.

— Eu vou voltar amanhã — ele disse.

— Eu sei.

— E depois de amanhã. E no mês que vem, e no ano que vem, e em todos os meses e anos que você me deixar ficar.

Helena apagou o cigarro na borda do vaso de planta. Virou-se para ele e, pela primeira vez naquela noite inteira, sorriu sem reservas, sem medo, sem a sombra de doze anos de silêncio.

— Então fica, Tomás. Fica.

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