Contos Eróticos

A Anotação à Margem e o Reencontro que Demorou Dez Anos

O envelope chegou numa terça-feira cinzenta, sem remetente, com apenas o meu nome escrito à mão numa letra que reconheci antes de ler. Dentro vinha um manuscrito de cinquenta páginas e um bilhete: “Preciso que alguém de confiança leia isto antes que eu perca a coragem.” Assinava Gabriel, poeta de trinta e sete anos, o mesmo rapaz magro de óculos redondos com quem partilhei bancada na faculdade de Letras e cujo último poema — rascunhado nas costas de um bilhete de comboio — guardo ainda dentro de um exemplar gasto de Sophia de Mello Breyner.

Reconheci o trabalho pelo título riscado e reescrito três vezes na primeira página: Margens. Eram traduções de um caderno de poemas que ele escrevera durante uma temporada isolada no Alentejo, com notas à margem em três idiomas. Clara, revisora literária de trinta e três anos, já tinha recusado nesse mês dois trabalhos por falta de agenda. Desta vez, contudo, respirei fundo, acendi a lâmpada da secretária e comecei a ler. Não foi a curiosidade profissional que me prendeu à cadeira até alta noite: foi descobrir que, entre os poemas, havia um dedicado a uma certa revisora que lhe devolvia manuscritos sem nunca lhe devolver o que sentia.

Há quem diga que um conto romântico de reencontro começa sempre tarde demais; o meu começou numa terça-feira, dentro de um envelope, com uma frase riscada a lápis e o coração a bater no ritmo de um poema que eu julgava esquecido.

Tudo o que se segue — e sobretudo o que se cala de propósito — é um conto de ficção literária, com personagens adultos e cenas sensuais que permanecem na sugestão.

O Manuscrito e a Distância

Durante duas semanas, o manuscrito viajou entre nós como correspondência clandestina. Eu devolvia páginas com observações a lápis; ele reenviava com novas notas, por vezes emendando as minhas próprias emendas com uma seta irónica e um “concordo, mas”. Nunca falámos por telefone. Havia qualquer coisa de deliberado nesse silêncio, um acordo tácito de que as palavras escritas preservavam melhor o que havia para dizer do que a voz, que teria pressa e atalhos demais. Cada página que ele me mandava voltava mais íntima do que a anterior, como se traduzir fosse, para ele, um modo de se entregar sem o risco de olhar nos olhos.

Eu, que vivo de limpar frases alheias, comecei a suspeitar que Gabriel escrevia para uma única leitora. Havia um poema sobre uma janela aberta para um pátio de Lisboa e o cheiro de café torrado; outro sobre mãos que folheiam um dicionário ao fim da tarde; um terceiro, quase tímido, sobre o som de uma lâmpada a ser acesa numa secretária. Nenhum me nomeava. Todos me descreviam. Foi nesse ponto que percebi que a revisão já não era sobre o texto, mas sobre uma pergunta antiga que nenhum de nós tivera coragem de fazer em voz alta, numa sala de aula cheia de poeira, há quase doze anos.

Respondi com a única honestidade que a profissão me ensinou: um comentário a vermelho, na margem do último poema, com quatro palavras. “Podemos falar disto?” No dia seguinte, chegou um bilhete curto, com um endereço na costa e uma data. “Leva o manuscrito. Leva também o que não está escrito.” Assinei o acordo mentalmente, arrumei o caderno na mala e comprei um bilhete de comboio para uma vila pequena onde, segundo ele jurava, o mar se ouvia de qualquer janela.

Passei a noite anterior à partida a reler as notas e a interrogar-me se não estaria a ler demasiado nas entrelinhas, a confundir um poeta melancólico com um homem enamorado. Revisoras aprendem cedo que o texto nunca é sobre quem o lê, por mais que o leitor queira sê-lo. Mas há um instante, entre a dúvida e a decisão, em que se percebe que certos manuscritos não pedem correção: pedem resposta. Guardei o lápis vermelho na mala, ao lado do caderno, e adormeci com a certeza estranha de que, pela primeira vez em doze anos, estava disposta a errar em voz alta.

No comboio, reli o caderno inteiro e sublinhei, sem dar por isso, todos os versos que falavam de espera. Havia muitos. Demasiados para um livro de traduções e suficientes, pensei, para uma vida inteira. Quando o comboio atravessou a serra e o sol nasceu sobre os pinhais, fechei os olhos e decidi que, fosse o que fosse que me esperasse ao fim do caminho de terra, eu chegaria inteira e sem pressa, como quem espera doze anos por uma resposta e pode esperar mais uma manhã se for preciso.

A Casa da Costa

A casa ficava no fim de um caminho de terra, com caiado azul nas ombreiras e um limoeiro na entrada. Gabriel esperava-me no patim, mais magro do que eu lembrava, com uma camisa de linho desabotoada nos pulsos e aquele jeito cansado de quem passou a noite em claro. Cumprimentou-me sem cerimónia, segurou-me a mala e disse, com a mesma pausa que ele deixava antes das palavras importantes: “Trouxeste o caderno?” Trouxe, respondi. E também o resto, pensei, sem dizer, enquanto ele me guiava por um corredor fresco que cheirava a papel velho e a sal.

Passámos a tarde a ler em voz alta, numa sala de chão de tábuas largas com uma janela que emoldurava o oceano. Ele lia os poemas originais; eu lia as minhas notas, e aos poucos as emendas deixaram de ser técnicas para se tornarem confidências. Corrigi-lhe a métrica de um verso; ele corrigiu-me a vida com uma pergunta. Quando a luz laranja do fim da tarde entrou pela vidraça, Gabriel fechou o caderno e disse, sem levantar a voz: “Sempre soubeste que isto não era sobre tradução.” Eu sabia. Sabia desde o envelope, talvez desde a faculdade, certamente desde aquele bilhete de comboio.

Foi ele quem propôs uma regra antes de qualquer gesto que ultrapassasse o papel. Nenhum de nós devia nada ao outro; qualquer dos dois podia interromper a qualquer momento, e ambos sabiam disso. Eu acenei e acrescentei a minha condição: que a manhã seguinte não tivesse pressa nem remorso, fosse qual fosse o desfecho. Ele sorriu daquele jeito tímido, tirou os óculos e deixou-os sobre o caderno aberto, como quem fecha simbolicamente um trabalho antes de abrir outra coisa qualquer.

O jantar foi simples — pão, queijo da serra, um vinho tinto que ele abriu mas no qual mal bebericou, e eu ainda menos. Estávamos sóbrios e perfeitamente conscientes, e foi essa lucidez, mais do que qualquer romance, que tornou a noite diferente de todas as que eu vivera. Conversámos sobre os poemas, sobre os anos perdidos, sobre o medo de estragar uma amizade rara com um desejo que chegara tarde demais para ser decente. E quando a conversa se esgotou, ficou a mesa por limpar, o mar ao fundo e o silêncio cômodo de duas pessoas que se escolheram sem urgência e sem desculpa.

Depois do jantar, lavámos a louça lado a lado, em silêncio, e foi nesse gesto banal — eu a secar, ele a arrumar — que a tensão se tornou suportável e ao mesmo tempo impossível de ignorar. Os nossos cotovelos roçavam-se por acaso, e nenhum de nós tratava de evitar o acaso. A certa altura, ele parou, com as mãos ainda molhadas, e disse apenas: “Estou com medo de estragar isto.” Respondi que eu também, e que esse medo, partilhado em voz alta, era talvez a melhor garantia de que não íamos estragar nada. Foi a primeira vez, naquela casa, que nos tocamos com intenção: ele secou-me uma gota de água da face com o polegar, devagar, e eu não me afastei.

Naquela noite, na casa da costa, Clara e Gabriel selaram o reencontro da única forma que lhes fazia sentido: devagar, em silêncio, com as mãos ainda sujas de tinta de lápis e o caderno Margens fechado sobre a mesa como uma testemunha. O que se passou atrás da porta fica onde deve ficar — na sombra amável que a ficção reserva aos encontros que não precisam de ser descritos para serem sentidos. Basta dizer que, ao amanhecer, a janela continuava aberta para o mar, o caderno continuava intacto e nenhum de nós tinha pressa de partir.

De manhã, enquanto o café aquecia, ele reabriu o manuscrito na página do último poema e leu em voz alta o verso que eu marcara a vermelho. “Há margens que a maré não leva.” Olhámo-nos por cima do papel, e foi como se doze anos de distância se contraíssem numa única respiração. Ele perguntou se eu queria ficar mais um dia. Eu disse que sim, com a mesma palavra pequena e inteira que se usa quando se diz a verdade, e ele voltou a sorrir, agora sem timidez.

Parti ao fim de dois dias, com o manuscrito revisado e uma promessa tácita de que haveria outros fins de semana, outros cadernos, outros silêncios partilhados entre duas cidades. No comboio de regresso, abri o exemplar de Sophia na página onde guardara o bilhete de comboio dele, há doze anos, e percebi que o tinha decorado sem nunca me dar conta. Reescrevi, na margem do bilhete, as mesmas quatro palavras que lhe deixara a vermelho, agora riscadas e substituídas por uma só, redonda e sem mágoa: sim.

Para outros reencontros que começam numa página escrita, há histórias como a de Bárbara e Tomás, que se encontraram de novo numa livraria de mão, sob uma chuva de outubro, ou como a vizinha de quem se fala no perfume do oitavo andar. O meu começou num envelope, numa letra que reconheci antes de ler, e não acabou numa página: recomeçou numa casa da costa onde o mar se ouve de qualquer janela e onde o consentimento — mais do que uma palavra dita uma vez — foi o ritmo, paciente e reversível, com que aprendemos, de novo, a escolher-nos.

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