Conto Erótico de Traição: O Cheiro Dele no Meu Lençol
O Cheiro Dele no Meu Lençol
Eu tinha tudo. Um marido que me tratava com carinho, uma casa no condomínio Alphaville com piscina aquecida, um emprego estável como arquiteta, e um cão labrador chamado Bento que dormia aos meus pés toda noite. Era a vida que eu havia planejado ponto por ponto desde os vinte anos — e talvez fosse exatamente por isso que, aos trinta e dois, eu me sentisse como uma planta num vaso bonito demais para ser replantada: cuidada, regada, mas sem espaço para as raízes respirarem.
Roberto — meu marido — viajava quatro dias por semana. Representante de uma empresa de equipamentos hospitalares, ele conhecia cada estrada do Sudeste brasileiro e cada hotel de aeroporto do país. Quando estava em casa, era gentil: trazia flores, perguntava pelo meu dia, fazia amor comigo aos sábados de manhã com uma cadência previsível que eu poderia coreografar de olhos fechados. Eu não era infeliz. Mas havia em mim um silêncio que se expandia, como uma sala vazia que ninguém entrava.
Foi nesse silêncio que Guilherme apareceu. Ou melhor: foi nesse silêncio que eu finalmente o vi — porque ele já estava ali, contratado pela construtora como engenheiro civil no projeto de um edifício comercial no centro, e eu era a arquiteta responsável. Trabalhávamos juntos há três meses. Ele era metódico, calado, com mãos grandes que manipulavam as plantas como se fossem tecido vivo. Tinha um sorriso raro que aparecia só quando algo o surpreendia de verdade — uma solução engenhosa, uma observação inesperada — e era desse sorriso que eu começava a gostar, sem ainda saber o quanto.
A Obra e o Encantamento
Os encontros de obra aconteciam às terças e quintas, sempre às nove da manhã. Guilherme chegava cedo, sempre com dois cafés — um para ele, um para mim. No início, achei que fosse cortesia profissional. Depois percebi que ele lembrava exatamente como eu gostava: sem açúcar, com um toque de canela. Perguntei uma vez como sabia. Ele respondeu, sem levantar os olhos da planta: “Eu presto atenção.”
Três palavras. E algo em mim se deslocou, como uma porta que cede sob pressão constante.
Comecei a notar coisas que antes me eram invisíveis: o jeito como ele enfiava as mãos nos bolsos quando pensava, a leve assimetria do sorriso, o cheiro de sabonete de ervas que exalava quando passava por mim no canteiro de obras, a maneira como seu olhar ficava mais escuro quando contemplava um problema. Eu me descobria pensando nele à noite, enquanto Roberto dormia ao meu lado, e isso me assustava — não pelo desejo em si, mas pela naturalidade com que ele ocupava espaços que não lhe pertenciam.
Uma tarde de outubro, choveu. A obra parou. Ficamos os dois no escritório do container, esperando a chuva passar, e ele me mostrou fotos da filha — uma menina de seis anos com olhos iguais aos dele. Falou do divórcio com uma honestidade sem ornamentação: “Ela achava que eu trabalhava demais. Eu achava que ela reclamava demais. As duas coisas eram verdade.” Depois ficou em silêncio, olhando a chuva, e eu fiquei em silêncio olhando ele, e nesse silêncio havia uma cumplicidade que eu não sentia há anos.
A Noite em que Tudo Cedeu
Foi num evento da construtora, num hotel no centro, numa sexta-feira de novembro. Roberto estava em Recife. Eu estava de vestido preto, com um vinho na mão e uma indisposição crescente para conversas vazias. Guilherme estava ali também, de terno, com o cabelo para trás — e eu não o tinha visto assim antes, e a visão me fez parar por um segundo, como quem tropeça num degrau invisível.
Ele se aproximou. Ofereceu água. Eu recusei. Ele insistiu: “Você está com a respiração curta.” Eu não sabia que ele tinha percebido. Eu não sabia que ele notava essas coisas. E quando nossos olhares se cruzaram por um segundo a mais do que deviam, entendi que eu não era a única pessoa naquela sala que tinha estado prestando atenção.
Subimos para o quarto dele sem combinarmos nada. Foi um acordo silencioso, feito de olhares e da pressa contida de dois corpos que sabiam exatamente o que queriam. A porta fechou. E então Guilherme me beijou — e o beijo não era gentil. Era urgente, profundo, com as mãos dele na minha cintura me puxando contra seu corpo, e eu sentia através do tecido a dureza dele contra meu ventre, e o desejo que eu tinha abafado durante semanas explodiu num gemido que se perdeu na boca dele.
Ele desabotoou o vestido pelas costas, devagar, como quem desembrulha algo precioso. A peça caiu no chão. Fiquei de lingerie preta, e Guilherme recuou um passo para me olhar — e nesse olhar havia uma fome contida que me fez sentir mais desejada do que em qualquer sábado de manhã com Roberto.
“Você é linda”, ele disse. Mas não foi a palavra que me tocou — foi a voz, rouca, como se lhe custasse falar. Como se cada palavra fosse um fio de autocontrole que ele soltava deliberadamente.
Ele me deitou na cama. Beijou meu pescoço, minhas clavículas, a faixa do sutiã, que desfez com um movimento único e seguro. A boca dele encontrou meus seios e eu enterrei os dedos no cabelo dele, puxando, enquanto a língua dele desen círculos que me faziam arquear. O cheiro dele era diferente do de Roberto — mais denso, mais quente, com aquele toque de ervas que eu tinha notado no canteiro de obras e que agora, naquela cama, parecia a assinatura de algo proibido.
O Corpo que Não Mente
Guilherme desceu pelo meu corpo com uma paciência que contrastava com a urgência do beijo inicial. Beijou meu ventre, desceu a calcinha com os dentes — um gesto que me fez rir e gemer ao mesmo tempo — e quando sua boca chegou entre minhas pernas, eu já estava tão úmida que senti o calor dele como uma descarga elétrica. A língua dele era precisa, ritmada, alternando pressão e velocidade com uma intuição que me deixava sem fôlego. Meus quadris se moviam sozinhos, buscando mais, e as mãos dele seguravam meus quadris firmes, como se quisesse me impedir de fugir do próprio prazer.
Eu cheguei ao clímax com os olhos fechados e o nome dele na boca — e foi aí que percebi a gravidade do que estávamos fazendo, porque aquele nome não era o nome do homem com quem eu era casada. Mas a culpa que deveria ter vindo antes veio depois, e quando veio, já era tarde demais para me deter.
Ele subiu, deitou-se ao meu lado, e eu o puxei por cima de mim. Quando entrou em mim, foi com um gemido grave que vibrou no peito dele contra o meu, e o ritmo começou lento, profundo, como se cada movimento fosse uma frase que ele estava dizendo com o corpo. Eu envolvi suas costas com as pernas, cravando as unhas, e ele aumentou o ritmo — e então fomos perdendo a suavidade, a cadência, e o que restou foi urgência, suor, pele batendo contra pele, e o som úmido e ritmado dos corpos que se encontram sem reservas.
Guilherme chegou ao clímax com meu nome nos lábios, enterrado fundo, e o calor dele dentro de mim era uma sensação que eu não experimentava havia muito tempo — não o ato em si, mas a intensidade do desejo que o acompanhava. Ficamos deitados depois, ofegantes, em silêncio. O ar-condicionado zumbia. A cidade continuava lá fora, indiferente.
O Depois
Voltei para casa às duas da manhã. O labrador Bento me recebeu abanando o rabo, como sempre. A casa estava escura e silenciosa, e o cheiro de Guilherme — aquele sabonete de ervas — estava na minha pele, no meu cabelo, no lençol onde eu me deitei para fingir que dormia. Roberto chegaria no dia seguinte. Eu tomaria dois banhos antes disso. Mas sabia que nenhum banho apagaria o que tinha acontecido, porque a traição não estava no corpo — estava na clareza brutal de que, pela primeira vez em anos, eu me sentia viva.
Não foi a última vez com Guilherme. Houve outras tardes, outros hotéis, outras noites em que a culpa e o desejo dançavam juntos numa coreografia que eu não sabia interromper. E cada vez, a pergunta ficava mais forte: o que eu estava traindo, afinal? Um marido? Um plano de vida? Ou a versão de mim mesma que eu tinha construído para caber num molde que nunca me serviu?
Não tenho resposta. Tenho apenas o cheiro dele no meu lençol, o silêncio da casa às duas da manhã, e a consciência de que certas escolhas, uma vez feitas, não podem ser desfeitas — apenas vividas até o fim, seja ele qual for.
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