Conto Erótico Curioso: Presos num Elevador e Sem Sinal de Telefone
O Elevador entre o 14º e o 15º Andar
Se alguém me contasse que um blecaute num prédio comercial seria o começo da coisa mais excitante que já me aconteceu, eu riria na cara dessa pessoa. Mas a vida é assim — curiosa, imprevisível, com um senso de humor sombrio que a gente só percebe depois.
Aquele dia tinha sido um desastre. Reunião às oito da manhã com o diretor comercial, que decidiu que o orçamento do departamento seria cortado pela metade. Almoço esquecido na gaveta da mesa porque um cliente ligou em pânico. E agora, quase sete da noite, eu estava voltando pra casa, exausta, com as pinças do sutiã incomodando e a calça justa marcando cada gota de suor daquele outubro que mais parecia verão.
Entrei no elevador do edifício Delmira — um daqueles prédios antigos do centro de Porto Alegre, com mármore escuro no hall e espelhos que distorcem o reflexo. Apertei o botão da garagem no subsolo e encostei na parede. Éramos eu e mais uma pessoa: um homem de terno escuro, cabelos grisalhos penteados pra trás, uns cinquenta e muitos anos, com um relógio de pulso que provavelmente custava mais que meu carro.
Olhou pra mim pelo reflexo do espelho e sorriu — um sorriso educado, de executivo acostumado a cumprimentar desconhecidos em elevadores. Eu retribuí e voltei a olhar pro painel de andares.
Oito. Nove. Dez.
No momento em que o elevador passou do décimo segundo andar, ouviu-se um estalo seco, seguido de um gemido metálico longo, e a cabine parou. As luzes piscaram uma vez e apagaram. Escuridão total, interrompida apenas pela luz fraca do botão de emergência e pela tela do celular que eu, por instinto, já tinha acendido.
“Merda”, disse ele. A voz era grave, com um leve sotaque que eu não identifiquei na hora.
“Parece que estamos com problemas”, eu respondi, tentando manter o tom de humor, apesar do coração acelerado.
Ele apertou o botão de emergência. Ficamos ouvindo uma musiquinha de espera por dois minutos, até que uma voz feminina, aparentemente entediada, informou que o técnico da manutenção estava a caminho e que a previsão era de trinta minutos.
“Trinta minutos”, repeti, olhando pro celular. Sem sinal. Claro.
Ele soltou um suspiro, tirou o paletó e o dobrou no braço. Sem o casaco, era mais magro do que eu imaginara — ombros largos mas estreitos, uma camisa azul clara que tinha as mangas dobradas até o cotovelo. Os antebraços eram fortes, com veias pronunciadas e uma leve impressão de sol, como se ele passasse fins de semana em algum lugar ao ar livre.
“Tem que ser assim mesmo”, disse ele, sentando-se no chão do elevador com a naturalidade de quem já passou por coisas piores.
Eu fiquei de pé por um minuto, mas a tensão nas pernas era demais. Sentei do lado dele, com as pernas cruzadas, e ajeitei a bolsa no colo como se fosse um escudo.
“Márcia”, disse ele, estendendo a mão.
Eu apertei. A mão dele era quente, seca, com a palma levemente áspera — mãos de quem faz algo além de escritório. “Letícia.”
O silêncio que se seguiu foi estranho. Não desconfortável — estranho no sentido de que eu estava cônscia de cada detalhe: o cheiro dele, um perfume amadeirado com notas de âmbar; o som da respiração; o calor que emanava do corpo, mesmo com uma distância de uns vinte centímetros entre nós.
“Você trabalha aqui?”, perguntei, pra quebrar o silêncio.
“Tenho um escritório no 14º. Advocacia tributária.” Ele sorriu, com uma ironia autodepreciativa. “Não pergunte, é mais chato do que parece.”
“Eu sou do 12º — uma agência de publicidade.”
“Publicidade. Agora faz sentido.”
“Faz sentido o quê?”
Ele virou a cabeça na minha direção. Mesmo na penumbra, eu podia ver o brilho dos olhos dele — verdes, notei agora. Verdes e amendoados, com rugas de riso ao redor que indicavam décadas de sorrisos genuínos.
“Faz sentido que você esteja com essa cara de quem carregou o mundo nas costas o dia inteiro. Publicidade é isso — carregar o mundo e fingir que tá leve.”
Eu ri. Uma risada de verdade, que saiu do peito. E ele riu junto. Naquele riso compartilhado dentro de uma caixa de aço parada entre dois andares, algo mudou. O ar ficou mais denso — ou eu fiquei mais atenta a ele.
A Tensão na Escuridão
Dez minutos se passaram. Falamos de besteiras — do calor absurdo daquela semana, do prédio que precisava de reforma, do fato de que ele tinha um cachorro chamado Bacon (porque todo cão merece um nome digno). Eu estava relaxada, ombros soltos, pernas esticadas, e já tinha tirado os sapatos — uns scarpins que estavam me matando.
“Sapato novo?”, perguntou ele, olhando pro meu pé.
“Sapato velho e cruel.”
“Tirou foi a melhor coisa que podia fazer.”
Eu encostei a cabeça na parede do elevador e fechei os olhos. Ouvi o barulho dele se mexendo — ajeitando as pernas, talvez esticando. Quando abri os olhos, ele estava mais perto. Não muito mais perto — mas o suficiente pra que eu percebesse que a distância entre nossos joelhos tinha diminuído de vinte centímetros pra quase nenhum.
“Posso perguntar uma coisa pessoal?”, disse ele, com a voz mais baixa.
“Depende.”
“Você é casada?”
A pergunta me pegou de surpresa. Não pelo teor — mas pela forma direta como ele fez. Eu hesitei. “Não. Divorciada há dois anos.”
“Desculpa. Foi falta de educação.”
“Não foi. Eu que sou assim — não levo aliança, não falo sobre vida pessoal, e as pessoas acham que sou casada.”
“Ou que não querem saber”, ele completou.
Eu o olhei. Ele me olhou. E ali, naquela escuridão quase total, algo muito estranho aconteceu: eu senti uma atração física imediata e avassaladora por um homem vinte e poucos anos mais velho que eu, num elevador quebrado, sem ar-condicionado, com as luzes apagadas.
Não fazia sentido. E era exatamente por não fazer sentido que era irresistível.
Ele pareceu perceber a mudança no meu olhar — ou talvez estivesse sentindo a mesma coisa. A mão dele, que estava apoiada no chão entre nós, moveu-se um centímetro na minha direção. Um gesto tão pequeno que poderia ter sido involuntário. Mas não era. Eu sabia que não era.
“O técnico ainda não veio”, murmurei, como se fosse uma justificativa.
“Não”, ele concordou.
Ninguém se moveu por alguns segundos que pareceram horas. Depois, ele ergueu a mão e tocou meu cabelo — sem pressa, sem pressão — apenas um deslizar de dedos pelas pontas, como quem testa a textura de um tecido.
“Sua cor de cabelo é essa mesmo?”, perguntou, com a voz ainda mais baixa.
“Castanho escuro com luzes ruins. É o prédio.”
Ele riu baixinho, e o som me fez arrepio. De repente, eu não me importava mais com a temperatura, com o suor, com o fato de estar num elevador. O mundo fora dali tinha deixado de existir.
O Contato
Eu me aproximei. Não fui até ele — ele é quem veio até mim, virando o corpo, colocando uma mão no meu pescoço e a outra na minha cintura. O beijo foi lento e profundo, com um gosto de café adocicado que me fez querer mais. A barba dele, grisalha e curta, esfregava na minha pele e causava uma fricção que era quase dolorosa de tão gostosa.
Minhas mãos encontraram os botões da camisa dele e começaram a abri-los — um por um, sem pressa, sentindo cada camada de tecido que cedia. Ele interrompeu o beijo pra me olhar. No escuro, os olhos verdes dele pareciam luminosos.
“Você tem certeza?”, perguntou.
“Não”, eu disse, com a voz tremida. “Mas não quero parar.”
Ele sorriu — daquele sorriso largo que desloca todas as rugas de riso — e me puxou pra si. A camisa abriu, e eu deslizei as mãos pelo peito dele, sentindo cada pelo, cada músculo, cada respiração que ficava mais pesada sob meus dedos. A pele dele era quente e lisa, com o cheiro do perfume se misturando ao suor — e a combinação me deixou completamente enlouquecida.
As mãos dele subiram por baixo da minha blusa, encontrando meus seios, acariciando com uma firmeza que me fez gemer dentro da boca dele. O som vibrava entre nós dois, e ele parecia se alimentar disso — cada gemido meu fazia com que ele me tocasse com mais intensidade.
Empurrei-o de costas pro chão do elevador, e subi em cima dele. A frieza do piso de metal contrastava com o calor dos nossos corpos de um jeito que era quase elétrico. Tirei a blusa e a sutiã num único movimento — não havia tempo nem paciência pra elegância. Os olhos dele percorreram meu corpo na escuridão, e mesmo sem enxergar direito, eu sentia o peso daquele olhar como uma carícia.
“Increíble”, ele sussurrou, e o espanhol escapou — o famoso sotaque que eu não tinha identificado antes.
“Eres tú”, murmurei de volta, surpresa comigo mesma por estar flertando em espanhol dentro de um elevador quebrado.
Ao que parece, o espanhol funcionou como gatilho. Ele ergueu os quadris, e eu senti a rigidez dele contra mim. Desabotoei a calça dele com dedos que já não tremiam — agora estavam firmes, decididos, guiados por um instinto que eu não sabia que possuía. Quando desceu a calça e a cueca juntos, ele estava completamente exposto a mim, e a visão — mesmo na penumbra — me tirou o fôlego.
Eu guiei-o para dentro de mim e desci devagar, sentindo cada centímetro, cada expansão, cada preenchimento. A sensação era diferente de qualquer outra que eu já tinha tido — havia um prazer cru, físico, sim, mas também uma intimidade que parecia impossível pra duas pessoas que se conheceram há menos de meia hora.
O ritmo começou lento. Ele segurava minha cintura e me guiava, e eu ia subindo e descendo com os joelhos apoiados no chão frio do elevador. Cada movimento era acompanhado de gemidos — meus, dele, misturados num eco metálico que subia pelo poço do prédio como uma sinfonia proibida.
Depois, o ritmo aumentou. Ele se sentou e me abraçou, puxando-me contra o peito, e eu envolvi as pernas ao redor dele, sentindo a profundidade de uma posição nova, mais íntima, mais desesperada. Os lábios dele estavam no meu pescoço, na minha clavícula, na base da orelha — e cada beijo era úmido, quente, deixando um rastro de sensações que se acumulavam como ondas num mar revolto.
O clímax veio juntos — ou quase. Eu primeiro, com um grito que abafei no ombro dele, sentindo o corpo inteiro se contrair como uma mola que foi solta. Ele me seguiu segundos depois, com um gemido grave que ressoou nas paredes de aço do elevador, apertando-me com tanta força que marquei os dedos dele nos meus quadris.
Ficamos abraçados no chão, ofegantes, rindo baixinho da situação absurda. Eu com a blusa torta, ele com a camisa aberta, os dois com o cabelo bagunçado e os corpos ainda tremendo.
“Isso é”, disse ele, sem fôlego, “sem dúvida, a melhor pane de elevador da minha vida.”
Eu ri até chorar — ou chorei até rir. Não sei.
Depois
O técnico chegou vinte minutos depois. O elevador voltou a funcionar com um estalo e um gemido metálico idêntico ao que o tinha parado. Descemos em silêncio — mas era um silêncio novo, cheio de significados que nenhuma palavra conseguiria capturar.
Na garagem, ele me entregou um cartão de visitas com o nome Ricardo Delgado, OAB. Eu dei o meu número escrito num guardanapo que tinha encontrado dentro da bolsa.
“Vou te chamar”, disse ele, guardando o guardanapo no bolso do paletó como se fosse um documento importante.
“Melhor chamar”, eu respondi, abrindo a porta do carro. “A senhora da portaria vai achar que eu sumi.”
Três dias depois, ele me ligou. Jantamos num restaurante italiano no bairro Moinhos de Vento. Depois do jantar, fomos pro apartamento dele — sim, mais uma vez, mas dessa vez sem interrupções de ninguém, sem elevador quebrado, sem escuridão involuntária. Foi ainda melhor.
Ricardo e eu nos vemos até hoje. Ninguém sabe como começou — nem os colegas do escritório dele, nem os meus amigos da agência. Se alguém perguntar, a gente diz que nos conhecemos no elevador. E tecnicamente é verdade — é só que omitimos os detalhes.
A vida é curiosa. Às vezes ela te joga numa caixa de aço com um desconhecido, apaga as luzes, e te dá a chance de sentir algo que você achava que não existia mais. E se você tiver a coragem de não ignorar aquele instinto, de não se afastar quando a mão dele se move aquele centímetro, de não perguntar “isso faz sentido?” antes de agir — aí, talvez, você descubra que as melhores coisas da vida não fazem sentido nenhum.
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