Conto Erótico de Amor Perdido: Cartas que Nunca Mandei e um Reencontro
Cartas que Nunca Mandei
Maurício voltou para a cidade numa terça-feira de junho, e eu só soube disso porque a Dona Conceição, do 3º andar, me mandou uma mensagem com foto: “Leticia, teu ex namorado tá de mudança no prédio dos Rodrigues,Rua Augusta 412.” Eu olhei a foto três vezes. Era ele — mais velho, mais magro, com cabelo comprido que antes não tinha e uma barba que nunca deixava crescer. Parecia outro homem. Parecia o mesmo homem. Parecia os dois ao mesmo tempo, e isso me deixou com um nó no estômago que durou o dia inteiro.
Nós tínhamos terminado há cinco anos. Cinco anos, três meses e doze dias — não que eu estivesse contando. Maurício era o tipo de homem que a gente não esquece: alto, moreno, com aquele jeito tranquilo de quem não precisa provar nada pra ninguém. Olhos amendoados, voz grave, e uma paciência com as coisas da vida que me fascinava e me irritava em partes iguais. Quando estávamos juntos, eu tinha vinte e quatro anos e achava que paciência era falta de paixão. Hoje, com vinte e nove, sei que paciência é o tipo mais raro de paixão que existe.
A gente terminou porque eu fui estúpida. Porque eu queria intensidade, drama, borboletas no estômago o tempo todo — e quando ele me oferecia paz, eu achava que era tédio. Dei o golpe final numa discussão idiota sobre um jantar que ele esqueceu de marcar. Sai de casa com uma mala, disse palavras que não pensei, e não voltei.
Pra ser honesta, eu não voltei porque achava que ele ia me buscar. Ele nunca veio. E eu nunca voltei. E assim ficamos, os dois orgulhosos e os dois solitários, cada um no seu canto da cidade, fingindo que estava tudo bem.
O Reencontro
Nos encontramos por acaso — ou pelo destino, se você é do tipo que acredita nisso. Eu estava na livraria do centro, folheando um romance de Dorothy Parker, quando ouvi alguém pronunciar meu nome errado — Letícia, mas com o acento na última sílaba, como só ele fazia.
Virei. E ali estava Maurício. De peito aberto — camisa branca, mangas dobradas, o mesmo relógio de couro marrom que eu dei de presente de aniversário há sete anos. Ele me olhou de um jeito que não consigo descrever — não era alegria, não era tristeza. Era reconhecimento. Como se ele estivesse vendo uma parte de si que tinha perdido.
“Letícia”, disse ele, agora com o acento certo, como se tivesse corrigido a pronúncia de propósito.
“Maurício.”
Paramos ali, no corredor de livros de ficção, com a luz amarela da livraria caindo em cima da gente como um filtro de cinema antigo. Ele sorriu — aquele sorriso de canto, meio torto, que sempre me fez sentir como se eu fosse a única pessoa no mundo.
“Toma um café comigo?”, perguntou.
Eu disse sim antes de pensar.
Sentamos na cafeteria da livraria — mesas pequenas, cadeiras desconfortáveis, um café regular que ninguém beberia por escolha. Mas ali, naquela cadeira dura, olhando o rosto que habitava meus sonhos por cinco anos, eu me senti mais à vontade do que em qualquer lugar nos últimos anos.
Conversamos por duas horas. Ele me contou que viveu em Curitiba por três anos, trabalhou numa ONG de educação, voltou porque a mãe adoeceu. Eu contei que continuei na publicidade, que mudei de apartamento três vezes, que adotei um gato chamado Vórtex — o nome ele achou ridículo e riu, e aquele riso me derreteu do mesmo jeito que derretia antes.
“Você tá diferente”, disse ele, olhando pra mim por cima do copo.
“Boa diferente ou ruim?”
“Boa. Parece mais… quieta. No bom sentido.”
Eu olhei pra ele e reparei nas mudanças: linhas de expressão ao redor dos olhos, uma marca pequena na sobrancelha que não existia antes, as mãos mais ossudas. A mesma mão que me segurava na rua, a mesma mão que acariciava meu cabelo quando eu não conseguia dormir. Aquela mão estava ali, a vinte centímetros de distância, e eu queria tocá-la como queria ar.
“Eu fiz muita coisa errada”, eu disse, baixinho.
Ele não respondeu na hora. Tomou um gole de café, colocou o copo na mesa, e me olhou com uma intensidade que me prendeu na cadeira.
“Nós fizemos muita coisa errada. Os dois.”
A Tarde na Varanda
Acabamos indo pro apartamento dele — um lugar pequeno, com livros por toda parte, uma cozinha minúscula e uma varanda com vista pra um quintal de jabuticabeiras. O apartamento cheirava a café torrado e madeira velha, e havia um violão encostado no canto da sala que eu nunca soube que ele tocava.
“Você aprendeu a tocar violão?”, perguntei, surpresa.
“Na Curitiba. Tinha um vizinho que era professor. Trocava aulas de violão por aulas de português pro filho dele.”
Ele sentou-se no banco do violão e começou a tocar algo suave — uma música que eu não reconheci, mas que me fez chorar. Os olhos se encheram antes que eu pudesse evitar, e eu virei o rosto pra esconder.
Maurício parou de tocar. Colocou o violão no chão e veio até mim. Sentou ao meu lado na poltrona, sem me tocar, mas perto o suficiente pra que eu sentisse o calor do corpo dele.
“Eu chorei também”, disse ele. “Muitas vezes. No começo, todo dia.”
“Eu também”, confessei, com a voz quebrada.
Foi quando ele me tocou — a mão dele no meu rosto, os dedos passando pela minha bochecha molhada, com a delicadeza de quem cuida de algo que teme quebrar. Eu fechei os olhos e me deixei sentir aquela mão como se fosse a primeira vez.
“Eu não quero repetir os mesmos erros”, disse ele, com a voz quase um sussurro.
“Eu também não.”
“Então vamos fazer diferente.”
Aproximei-me dele e o beijei. O beijo não foi apressado, não foi faminto — foi lento, profundo, com uma ternura que eu nunca tinha experimentado em nenhum outro beijo da minha vida. Os lábios dele tinham o gosto do café e algo doce, talvez o bolo de banana que ele tinha comido na livraria. Senti a barba dele roçando na minha pele e cada contato era ao mesmo tempo familiar e novo, como revisitar um lugar da infância e perceber que tudo parece menor — mas mais significativo.
As mãos dele deslizaram pelos meus cabelos, afastando-os do rosto, e depois desceram pelo pescoço, encontrando a nuca, onde os dedos se entrelaçaram com a pressão exata que sempre me fazia suspirar. Eu passei os braços ao redor do pescoço dele e o puxei mais pra perto, sentindo o peso do corpo dele contra o meu — mais leve do que eu lembrava, mais magro, mas ainda assim sólido e reconfortante como uma casa.
Devagar e com Tudo
Ele me levantou da poltrona e me guiou até o quarto. Era pequeno — cama de solteiro, lençóis azuis, a luz da tarde entrando pela janela e pintando tudo de laranja. Fechou a porta e ficou ali, me olhando com aquele olhar que era metade amor e metade reverência.
“Temos tempo”, disse ele.
E foi assim — com tempo. Cada peça de roupa que saía era um acontecimento. Ele tirou minha blusa com cuidado, beijando cada pedaço de pele que ia sendo revelado — a clavícula, a base do pescoço, o ombro — como se estivesse redescobrindo um mapa que já tinha memorizado, mas que agora olhava com olhos novos.
Eu tirei a camisa dele e reparei no corpo — mais magro, sim, mas ainda com aquela definição natural que sempre me encantava. O peito com pelos que antes eram escuros e agora tinham fios grisalhos. A barriga mais reta. As mãos que antes eu achava apenas bonitas e agora sabia que eram capazes de criar música.
“Tocar violão”, murmurei, passando os dedos pela palma da mão dele. “Isso é muito sexy.”
Ele sorriu — aquele sorriso torto que era tudo pra mim.
A cama de solteiro rangia quando nos deitamos juntos, e a estreiteza nos forçou a ficar colados um ao outro — o que, aliás, era exatamente o que a gente queria. Suas mãos percorreram meu corpo inteiro — das têmporas aos pés — com uma atenção a cada detalhe que me fazia sentir como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo.
Quando ele me penetrou, foi devagar — tão devagar que cada centímetro era sentido separadamente, com uma intensidade que me fez lacrimejar de prazer. Ele olhava nos meus olhos durante o movimento, e a conexão visual, somada à sensação física, me fez sentir algo que ultrapassava o prazer — era emoção pura, acumulada por cinco anos de saudade e arrependimento, sendo libertada de uma só vez.
“Eu te amo”, sussurrei, e a frase saiu antes que eu pudesse pensar se devia dizê-la ou não.
Ele parou — por um segundo, o corpo todo dele imobilizado — e depois me beijou com uma força que me tirou o ar e respondeu, contra meus lábios: “Eu nunca parei.”
O ritmo aumentou, mas nunca perdeu a ternura. Cada movimento era uma frase de amor escrita em linguagem corporal — cada empurrão, cada giro de quadril, cada suspiro. Eu o envolvi com as pernas e o atrai mais fundo, sentindo o prazer se acumular como uma onda que sobe, que sobe, que sobe — e quando finalmente estourou, foi como uma explosão de calor e luz que percorreu cada nervo do meu corpo.
Ele seguiu logo depois, com um gemido que me fez tremer, e colapsou sobre mim, o peso dele sendo a coisa mais reconfortante do mundo.
Ficamos ali, num abraço pegajoso de suor e lágrimas, com a luz da tarde ficando vermelha e depois roxa pela janela. O violão estava no chão da sala. O gato dele — Gambá, descobri — miou na porta do quarto. E nós dois rimos, choramos, e ficamos em silêncio, ouvindo o som dos pássaros no quintal.
As Cartas
No dia seguinte, Maurício me mostrou uma caixa de sapato guardada no armário. Dentro havia dezenas de cartas — escritas à mão, com a caligrafia dele que eu reconhecia de memória. Todas endereçadas a mim, com data e tudo. Nenhuma tinha sido enviada.
“Eu escrevia”, disse ele, sentado na cama com a caixa no colo, sem me olhar. “Toda vez que sentia sua falta, eu escrevia. Depois não mandava, porque achava que você não queria saber.”
Peguei uma carta aleatória. Era de dois anos atrás. Começava com: “Letícia, hoje passei pela padaria onde a gente tomava pão de queijo quente e o cheiro me derrubou.”
Li três cartas. Chorei em todas.
“Eu não escrevi nenhuma”, confessei. “Mas pensei em você todos os dias.”
Ele olhou pra mim, com os olhos molhados, e disse: “A gente tem cinco anos de atraso. Vamos aproveitar cada dia.”
Hoje, Maurício e eu estamos juntos de novo. Não é perfeito — discutimos, temos diferenças, e às vezes eu ainda sou impaciente demais. Mas agora eu sei o que significa paciência, porque ele me ensinou. E agora eu sei o que significa amor, porque perdi e encontrei de novo.
Nem todos os amores sobrevivem ao orgulho. Mas alguns — os melhores — esperam no armário, dentro de uma caixa de sapato, guardados em cartas que ninguém enviou, esperando o dia em que o acaso resolve dar uma segunda chance.
Se você curte histórias de amor com intensidade e sentimento ou quer ler sobre como o desejo surge dos lugares mais inesperados, tem mais contos por aqui que vão te tocar.