Conto Sensual: Encontro Inesperado na Mesa dos Solteiros
Havia uma mesa em todo casamento que ninguém escolhia sentar: a dos solteiros, a dos acompanhantes de última hora, a das pessoas que vieram por educação e ficaram por carinho. Duda conhecia a regra de cor. Já tinha ocupado essa mesa em praia, em serra e em salão de clube, sempre na mesma cadeira de canto, sempre com a mesma taça de espumante morno na mão, sempre inventando um sorriso quando os noivos passavam e a madrinha de plantão perguntava, com carinho invencível, e você, minha querida, quando é a sua vez.
Duda, trinta e quatro anos, designer de interiores recém-saída de um relacionamento de seis anos que terminou sem berros, com a calma triste de quem desmonta uma casa aos poucos, tinha aprendido a frequentar casamentos como quem visita um país vizinho: com passaporte em dia, presentes comprados em loja e expectativa zero. Sabia dançar sozinha sem parecer abandonada, sabia elogiar o buffet sem parecer faminta e sabia ir embora cedinho sem parecer fugitiva. O que ela ainda não sabia, naquela tarde de maio na fazenda restaurada em Socorro, interior de São Paulo, era que existia uma regra ainda mais antiga do que a mesa dos solteiros: o acaso não escolhe as pessoas certas, escolhe as pessoas disponíveis.
Rafael chegou depois das quatro, quando a cerimônia já tinha terminado e o coquetel já tinha começado, com a camisa social de mangas dobradas e o arbusto de presente embaixo do braço, trocado às pressas por um envelope porque o arbusto morreu no porta-malas. Ele era colega do noivo na construtora, homem de poucas palavras em festas e muitas em canteiros de obra. E Duda reconheceu aquele rosto antes mesmo de o coordenador de mesa anunciá-lo como o duodécimo convidado solteiro. Era o homem do guarda-chuva. O desconhecido que, três meses antes, numa fila interminável do cartório, lhe estendeu o guarda-chuva preto quando a chuva desabou sobre os dois na calçada e não disse uma única palavra, só sorriu, e foi embora antes que ela pudesse devolver qualquer coisa que não fosse um obrigado sem graça.
O brinde na mesa sete
A mesa sete ficava perto da janela do salão, com uma toalha cor de champanhe e um arranjo de eucalipto que mais parecia esconder os convidados do que enfeitá-los. Rafael, trinta e nove anos, puxou a cadeira ao lado de Duda sem pedir, parou no meio do gesto e perguntou se aquele lugar estava livre, e o jeito como corrigiu a própria pressa fez ela sorrir antes de responder. Apresentaram-se com nome, apelido e o vínculo mais distante possível com os noivos. Quando ele disse que trabalhava com o noivo, ela disse que era amiga da infância da noiva, e os dois concordaram, em uníssono, que casamento é o único lugar do mundo onde duas pessoas completamente estranhas são sentadas frente a frente e obrigadas a se gostar.
O espumante chegou às sete, morno como sempre, e os dois decidiram que aquilo era motivo suficiente para um brinde. Rafael ergueu a taça e propôs: aos que vieram por educação e ficaram por vontade. Duda repetiu a frase devagar, provando o peso de cada palavra, e achou que era o melhor brinde que já tinha ouvido em dezenove casamentos. Conversaram de tudo o que não importa e por isso importa tanto: a cidade e o trânsito, o trabalho e o cansaço, a morte lenta do arbusto no porta-malas, a chuva do cartório. Quando ela mencionou o cartório, ele deixou a taça no meio do caminho entre a mesa e a boca. Foi você, disse ele. A mulher do guarda-chuva. E corou, um homem de trinta e nove anos corando numa mesa de casamento, e Duda descobriu que existem formas mais elegantes de o tempo pedir licença para entrar.
O DJ animava a pista com os mesmos dez sucessos que animam todas as festas do país, e a madrinha de plantão já tinha começado a sua ronda matrimonial. Quando o buquê sobrevoou a mesa sete e caiu, por acaso absoluto, exatamente no meio do prato de Rafael, o salão inteiro riu e ele ficou sério, segurando as flores brancas como quem segura um certificado de regularização. Devolvo, disse ele, apontando o buquê na direção da pista. Não devolve nada, disse Duda, morrendo de rir. Um homem que segura um buquê na frente de todo mundo e não sai correndo merece, no mínimo, a segunda taça de espumante. Foi a vez dele de sorrir com os olhos antes da boca.
A fuga pela varanda dos fundos
A chuva chegou da serra às nove, grossa e teatral, derrubou a cobertura do coquetel e empurrou duzentos convidados para dentro do salão, onde o calor humano virou sauna e a música subiu dois tons. Foi Duda quem propôs a fuga. Conheço um lugar mais quieto, disse ela, mentindo com convicção, porque conhecia apenas a indicação do caminho no corredor de serviço. Atravessaram a cozinha entre bandejas e cumprimentos apressados, passaram pela sala de brinquedos das crianças e chegaram a varanda dos fundos, sob o pisca-pisca, onde a chuva batia no telhado de zinco e o som alto virava um rumor distante, quase romântico, quase mentira.
A varanda tinha duas cadeiras de vime, um balanço antigo e a respiração comprida da serra depois da chuva. Rafael sentou no balanço, Duda escolheu a cadeira, e os dois riram da formalidade, de novo com as taças na mão, agora geladas, buscadas às escondidas na adega da fazenda. Conversaram do que não se conta em mesa de casamento. Ele contou do casamento que terminou há dois anos, sem vilões, com uma mudança de cidade e um divórcio assinado em silêncio. Ela contou dos seis anos que desmontou aos poucos, das caixas que ainda estavam na garagem, da mania de guardar tudo que lembra e de se recusar a lembrar. Nenhum dos dois usou a palavra solidão. Os dois souberam, na mesma hora, que era exatamente aquela a palavra que faltava.
A música baixou, alguém cantou uma balada dentro do salão, e Rafael perguntou se ela dançava com ele ali mesmo, sem plateia, sem palco, sem madrinha de plantão. Duda disse que sim. Levantou, atravessou os três passos que separavam a cadeira do balanço e parou a centímetros dele, com a mão aberta e a palma virada para cima, o mesmo gesto que ele tinha feito com o guarda-chuva na fila do cartório. Ele olhou a mão, olhou o rosto dela, respirou fundo e disse, baixo e claro, que se ela quisesse parar a qualquer momento, bastava dizer. Ela respondeu que sim, que bastava dizer, e que ela ia dizer sempre que quisesse. Ficaram combinados, e o combinado ficou mais bonito do que a balada.
O sim dito devagar
Dançaram devagar no espaço estreito entre o balanço e a porta, os passos curtos, as mãos ainda tímidas, o cheiro de chuva e de eucalipto. Foi Rafael quem perguntou, em voz baixa, se podia beijá-la. E Duda disse sim. Um sim dito devagar, sem pressa nenhuma de acabar, porque ela sempre acreditou que a palavra sim tem gosto e merece ser saboreada. O beijo veio depois, doce como espumante gelado, e depois dele veio outro, e depois a mão dele no rosto dela, e o polegar dela na nuca dele, e a chuva que continuou a cair no telhado de zinco como quem aplaude sem interromper. O resto daquela noite ficou entre os dois, na varanda e depois no fim da varanda, onde as luzes não alcançavam e a serra não testemunhava, e tudo o que se pode dizer é que foi inteiramente desejado, inteiramente escolhido e inteiramente bom.
Amanheceu com neblina baixa e cheiro de café passado no coador de pano. Duda encontrou Rafael na varanda, já de pé, com duas canecas e um croissant roubado da mesa do café da manhã. Ninguém combinou nada grandioso. Ele pediu o telefone dela dizendo que ia ligar, não que podia ligar. Ela digitou o número dele no próprio celular e mandou uma mensagem na hora, um guarda-chuva desenhado em emoji, para que ele também tivesse o dela. Despediram-se no estacionamento, diante de carros diferentes e de um mesmo dia de estrada, com um beijo que não parecia despedida nenhuma.
Ligou na terça seguinte, como prometido. No mês seguinte foram ao cinema, depois à serra, depois ao cartório, só para provar que existia mesmo. Duda guardou o guarda-chuva preto num cabide especial do corredor, e toda vez que chove em São Paulo ela lembra que o acaso não escolhe as pessoas certas, escolhe as pessoas disponíveis, e que às vezes basta estar na fila certa na chuva certa. Se gosta de histórias assim, em que o desejo nasce do imprevisto e cresce no respeito, vale ler o conto sensual do encontro inesperado na noite do apagão, ou se surpreender com uma carta escondida entre as páginas de um livro antigo.
Como em todas as histórias deste site, todos os personagens desta narrativa são adultos, maiores de dezoito anos, capazes de escolher, de recusar e de mudar de ideia. E do primeiro brinde ao último beijo, entre Rafael e Duda existiu consentimento afirmativo, contínuo e renovável, dito em voz alta e respeitado do primeiro brinde ao último beijo: cada pedido teve resposta, cada resposta pôde ser mudada, e nenhum dos dois precisou de coragem para parar, porque parar nunca precisou de coragem, só de verdade.