Contos Eróticos

O Convite por Olhares que Mudou Tudo Naquela Milonga

Há anos que eu não entrava naquela milonga de Alfama, e foi só pelo cheiro — café requentado, madeira velha, perfume de alfazema que não era meu — que entendi estar de volta. A sala era a mesma: as cadeiras de palhinha encostadas à parede, a pista que alguém oferecera ao bairro num gesto de saudade, o bandoneón ensaiando um lamento que ainda não era música. Eu era Elena, trinta e quatro anos, e tinha prometido a mim mesma nunca mais voltar. Voltei na mesma, com um vestido preto que não usava há duas estações e os mesmos saltos que ainda sabiam onde pisar.

A dança de tango nos ensinara tudo o que sabíamos sobre adiar. Lá no fundo, com um copo vazio na mão e um meio-sorriso que eu conhecia tão bem quanto o meu nome, estava o Rodrigo, trinta e seis anos, o parceiro com quem partilhara três invernos antes de tudo se desfazer sem uma explicação que prestasse. Ele não me viu entrar. Ou fingiu que não viu. No tango, fingir é metade da gramática, e nós tínhamos sido alunos aplicados nessa matéria.

Sentei-me. Cruzei as pernas. Esperei, fingindo interesse no rodízio dos casais. Há quem diga que o tango começa quando os corpos se tocam; quem o dança a sério sabe que começa muito antes, nesse olhar que atravessa a sala inteira e pergunta queres? sem formar uma única vogal. Foi assim que ele me encontrou, ou que eu me deixei encontrar: com os olhos dele pousados em mim como quem reconhece uma melodia que não toca há muito tempo, e teme já ter esquecido as mãos.

O convite que não usou palavras

No tango, o convite chama-se cabeceo, e é a coisa mais honesta que conheço. Não há mão estendida que obrigue, não há pedido que constranja. Há só um movimento de queixo, um aceno quase invisível, e a outra pessoa fica livre para aceitar ou para olhar para o lado como se nada tivesse acontecido. Foi assim que o Rodrigo me chamou da outra ponta da sala, e foi assim que eu respondi — com um sim que podia ser desfeito a qualquer momento, porque era meu, e ninguém o podia roubar.

Levantei-me antes de me arrepender. Atravessei a pista com os saltos a ecoar na madeira gasta, e quando ele abriu os braços entendi que já não havia regresso a um lugar seguro — só avanço, ou o vazio de não ter vindo. Coloquei a mão no ombro dele. O corpo dele reconheceu o meu como uma casa que nunca chegámos a mobiliar, mas cuja planta ainda guardávamos de cor.

Dançámos. O bandoneón encontrou enfim o seu lamento, e nós encontrámos o eixo um do outro — aquele ponto impossível, no centro do peito alheio, onde dois corpos se equilibram sem peso. Ele conduzia como sempre conduzira: devagar, com uma dúvida ensaiada nos viravoltas, como se cada passo fosse uma pergunta que não tinha a certeza de querer fazer. Era a milonga que selou o nosso reencontro, e nada naquela sala — nem a luz cor de âmbar, nem os casais a rodar à nossa volta, nem o silêncio de quem apenas observa — nos pertencia mais do que os três minutos daquela música.

No fim da primeira tanda, soltámos o abraço como quem larga a respiração. Há regras não escritas: dança-se três ou quatro músicas com a mesma pessoa e depois, com um aceno educado, cada um regressa ao seu canto. Mas o Rodrigo não soltou a minha mão. Olhou-me e disse a única palavra que importava, numa voz que eu ouvia dormida há anos: Jantar? Sorri. Estou sóbria o suficiente para aceitar, respondi, e era verdade — uma água com gás na mão toda a noite, porque queria lembrar-me de tudo, palavra por palavra.

O caminho de volta ao abraço

Saímos para a rua com o rio a cheirar a sal por baixo da brisa. O Rodrigo caminhava perto sem me tocar, a mão dele oscilando ao lado da minha como uma pergunta suspensa no ar. Fui eu que entrelacei os dedos nos dele. Nada de promessas, nada de juramentos — só o calor de uma palma que se lembrava da minha depois de tanto tempo. Foi a noite que escolhemos dividir, e escolher foi, sem o sabermos, a parte mais sensual de todo o percurso.

Caminhámos sem pressa. Ele perguntou pelos anos que tinham faltado, e eu respondi por metáforas, porque a verdade doía demais para caber numa calçada. Houve um beijo num portal estreito, o tipo de beijo que se demora não por ter pressa de chegar a algum lado, mas por gostar de se perder no caminho. E havia consentimento em cada pausa: ele parava, eu aproximava; eu recuava um passo, ele esperava, sem avançar nada por garantido. Era uma conversa feita de intervalos.

Na soleira do meu prédio, hesitámos os dois à luz do candeeiro, que nos fazia sombras compridas no chão. Não precisas de me convidar, disse ele, e eu soube, pela forma como o disse, que aquela frase era o oposto de pressão — era a saída deixada aberta de propósito, para o caso de eu a precisar. Puxei-o pela gola do casaco. Quero, disse. Uma palavra só. Suficiente.

O que se seguiu foi nosso e só nosso, e fica onde deve ficar — na memória, não na página. Basta dizer que o desejo que crescia entre nós desde a primeira nota do bandoneón encontrou, enfim, o seu descanso, e que de manhã, quando a luz entrou pelas persianas em tiras, nenhum de nós se arrependeu. Fizemos café para dois. O Rodrigo bebia sem açúcar, como sempre, e eu achei que havia uma graça discreta nisso — conhecer alguém o suficiente para saber como gosta do café, e o suficiente para lhe deixar a xícara quente na mão sem precisar de perguntar se queria mais.

Há neste sítio outros contos românticos que seguem o mesmo fio de saudade; e quem prefira a tensão sem enfeite encontrará ecos parecidos nos relatos reais.

Há quem diga que reencontros são armadilhas, que o passado regressa só para nos castigar com a sua repetição. Eu prefiro pensar que por vezes ele volta porque ainda não acabou de dizer o que tinha a dizer. Saí daquela milonga sem me prometer nada, e acordei no dia seguinte sem prometer nada. Mas quando o Rodrigo me mandou uma mensagem na quarta-feira a seguir — bailamos outra vez? — não fingi, desta vez, que não a vi. Respondi com um cabeceo de palavras: quero.

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