Conto Sensual: Encontro Inesperado no Apagão de Lisboa
Conto sensual encontro inesperado: foi esse o título que Marina escreveu, três dias depois, na primeira página de um caderno novo, porque nenhum outro arranjo de palavras fazia justiça à noite em que Lisboa se apagou de repente. Ela colecionava títulos como outras pessoas colecionam fotografias. Naquela quinta-feira de agosto, saíra tarde da redação, com a mochila cheia de provas e a cabeça cheia de frases que não eram dela. Lembra-se do relógio da praça marcando vinte e duas horas, dos terraços apinhados, do ar parado que prenunciava trovoada. Lembra-se, sobretudo, de ter recusado o convite para a terceira cerveja dos colegas. Queria ir para casa, tomar banho, dormir. A cidade, porém, tinha outros planos, e os planos da cidade nunca pedem licença.
Marina tinha trinta e três anos, revisora de uma revista de cultura que sobrevivia às custas de anúncios de vinhos, e morava sozinha na Graça, com uma janela que abria para telhados vermelhos e uma fatia generosa do rio. Há dois anos não namorava ninguém com seriedade — não por luto nem por princípio, mas por uma espécie de preguiça afetiva que ela própria diagnosticava com humor: o coração dela estava em modo de poupança de energia, como um computador antigo. Os amigos insistiam em apresentar-lhe gente. Ela dizia sempre que sim, comparecia, voltava para casa com a sensação de ter cumprido uma burocracia qualquer. Nada contra ninguém; só aquela ausência de faísca que apavora quem já a conheceu um dia.
Foi na Rua da Prata, a meio caminho entre o metro e o ponto de táxi que ela nunca apanhou, que as luzes morreram. Primeiro os semáforos, num hausto só; depois as montras, uma a uma, como velas apagadas por dedos invisíveis; por fim o ribombo escuro dos prédios inteiros, janela após janela, até ao cume. O silêncio que se seguiu não foi bem silêncio: foi a cidade a prender a respiração. Os carros pararam onde estavam, surgiram telemóveis a servir de tochas, alguém riu, alguém praguejou, um cão ladrou três vezes e desistiu. Marina ficou parada no passeio, a mão na alça da mochila, esperando que a corrente voltasse. Não voltou.
A cidade que se apagou
Um apagão em rede, diriam as notícias no dia seguinte, causado por uma avaria numa subestação e por uma onda de calor que dobrara os cabos de fadiga. Naquela noite, porém, não havia explicações — havia apenas uma Lisboa reduzida a sons: passos, vozes, o ladrar tímido dos cães, o zumbido de geradores de restaurantes que acendiam, aqui e além, um clarão amarelado. Marina caminhou alguns quarteirões a avaliar as opções. O metro parara. Os autocarros, parados. Os táxis, invisíveis. Estava a dez minutos de casa quando começou a cair aquela chuva de agosto que não pede desculpa por chegar tarde: grossa, morna, súbita. Ela fechou o cenho, apertou o passo, procurou abrigo.
O abrigo mais próximo foi o alpendro de um cinema antigo, um daqueles em risco de demolição que sobrevivem à força de cartazes de festas de bairro. A marquise de vidro e ferro protegia três metros quadrados de calçada seca. Marina encolheu-se junto a um cartaz desbotado e pôs-se a olhar a chuva, com aquela mistura de contrariedade e rendição que as cidades ensinam. Duas outras pessoas passaram correndo, sem olhar. Um senhor fechou a persiana de uma farmácia e foi-se embora. E então, do fundo da rua, apareceu uma silhueta alta, caminhando sem pressa na chuva como se a chuva não lhe dissesse respeito, com um casaco de linho encharcado e um sorriso que se via à luz distante dos telemóveis.
Ele também procurou o alpendro e parou a dois passos de distância, num respeito imediato que Marina notou com aprovação. Sacudiu a água dos ombros, olhou a chuva, olhou o relógio sem luz no pulso, riu-se da própria inutilidade do gesto. Foi a primeira coisa que ele disse, aliás — não um elogio, não uma abordagem: riu-se do relógio que não marcava nada e comentou, para o ar: — Nunca confiei em relógios que precisam de eletricidade para mentir. Marina riu também. A chuva apertava. O cinema estava fechado, com um cadeado antigo na porta lateral. Restaram eles dois, a água, três metros quadrados de chão seco e a cidade toda às escuras pela frente.
Dois estranhos no escuro
Apresentaram-se como se apresentam os adultos em noites estranhas: primeiro os nomes, depois os ofícios, por fim aquelas confissões pequenas que servem de teste ao caráter. Ele era Duarte, trinta e cinco anos, técnico de som que passara uma década a gravar concertos em teatros meio vazios e agora trabalhava num estúdio de podcasts que vivia de publicidade. Ia a pé para Alvalade quando a cidade desligou, e decidira continuar a pé porque, nas palavras dele, uma cidade às escuras é uma cidade a mostrar-se sem maquiagem. Foi também ele quem desenhou a regra daquela noite, antes de qualquer outra coisa: — Se eu estiver a mais, é só dizer, e eu atravesso a rua e espero a chuva do outro lado, com toda a felicidade do mundo.
Marina achou graça e respondeu no mesmo tom: que ficasse, que três metros quadrados davam para dois, desde que ele não tentasse convertê-los em palco. Ele prometeu. E começou, desse modo, a conversa mais estranha e mais simples da vida dela: falaram do calor, dos apagões antigos que cada um lembrava da infância, dos cinemas em demolição, da chatice das festas de verão, dos livros que os dois tinham fingido ler. Ele tinha uma voz grave com um fundo de riso, daquelas vozes feitas para rádio de madrugada. Ela surpreendeu-se a falar mais do que falava em jantares inteiros, porque não havia plateia, não havia telemóvel aceso, não havia luz nenhuma a exigir que se apresentassem melhores do que eram.
A chuva não dava sinais de cansaço. A rua fora-se esvaziando de vozes, e restavam apenas eles dois, o barulho da água nas telhas e, ao longe, o gemido de uma sirene que não chegava a lado nenhum. Em dado momento, os olhos dos dois ajustaram-se tanto ao escuro que Marina passou a distinguir o desenho do rosto dele: a barba curta, o ar de quem dorme pouco, a maneira atenta como ouvia — sem interromper, sem fingir pressa, como se as palavras dela merecessem trilha sonora própria. Sentaram-se no degrau da entrada do cinema, lado a lado, com uma distância de palmo entre eles que nenhum dos dois se apressou a fechar.
O sim em voz alta
Nada naquela noite aconteceu por deslize, por acaso ou por efeito de copo cheio: nenhum dos dois tinha bebido nada além da água que ele carregava numa garrafa e que partilhou, e isso, de certo modo, também foi uma declaração de intenções. Quando a conversa baixou de tom e ficou apenas o som da chuva, foi Marina quem abriu o jogo, porque preferia a clareza ao mal-estar: disse que estava a gostar muito daquilo, que gostava dele, e que queria saber se ele queria ficar. Cada passo só aconteceu porque os dois disseram sim em voz alta, um sim que qualquer um podia retirar a qualquer momento sem dever explicações. Ele respondeu que sim com uma seriedade que não combinava — e combinava perfeitamente — com o sorriso.
Combinaram regras como quem combina uma coreografia: sem pressa, sem expectativa, com a liberdade inteira de recuar. Ele perguntou se podia aproximar a mão; ela disse que sim; a mão dele pousou na dela devagar, como se pedisse licença a cada centímetro. Ela retribuiu o gesto e depois, porque lhe apeteceu, retirou a mão por um momento, apenas para provar a si mesma que podia; ele sorriu no escuro e não se moveu um milímetro, e esse sossego valeu mais do que qualquer discurso. Mais tarde, já com a chuva fina e a cidade ainda às escuras, nada além disso foi dado por certo: ela disse quero, ele disse quero, e o resto foi uma conversa feita de pausas, de nomes, de riso contido.
O que aconteceu depois pertence-lhes e não a estas páginas, porque há intimidades que só cabem na memória de quem as vive. Basta dizer que subiram os oitenta e dois degraus até ao quarto dela no alto da Graça, à luz de uma vela de emergência que ela guardava para os apagões, e que a manhã seguinte os encontrou com café, pão torrado e uma conversa que não queria acabar. O desejo, quando é bom, não precisa de plateia; precisa de silêncio, de tempo e de dois adultos inteiros.
Manhã com luz nova
Lisboa acordou devagar, em bairros, como um doente a recuperar os sentidos. A luz regressou à Graça no meio da manhã, os frigoríficos voltaram a zumbar, os semáforos retomaram o turno, e Marina e Duarte saíram à rua como duas pessoas que já se conheciam de outra vida. Caminharam até ao miradouro mais próximo e sentaram-se num muro a olhar a cidade lavada, que brilhava como se a chuva da véspera a tivesse devolvido à fábrica. Ele contou histórias de gravações desastrosas; ela contou os absurdos que a profissão dela colecionava. Riram muito. E, em dado momento, sem cerimônia nenhuma, ficaram os dois em silêncio, o que, entre duas pessoas inteiras, também é uma forma de conversa.
Não houve promessa grande, naquela manhã, porque nenhum dos dois acreditava em juramentos feitos de ressaca de encantamento. Houve, em vez disso, uma troca de números feita sem drama, um combinado de jantar para a semana e um beijo de despedida no portão que já não era pergunta nenhuma, mas resposta. Marina subiu as escadas do prédio a assobiar desafinado, coisa que não fazia desde a faculdade. Duarte desceu a rua com o casaco de linho já seco e uma ideia nova de canção na cabeça, porque as melhores ideias dele, ele diria depois, chegavam sempre depois de noites que ninguém planejou.
O que ficou depois
O apagão durou seis horas e entrou para o rol de assuntos de família, de conversas de café e de grupamentos de mensagens. Marina guardou-o de outro modo. Guardou a lembrança da garrafa de água partilhada, do degrau frio do cinema, da regra estabelecida antes de tudo — se eu estiver a mais, é só dizer — e do gosto estranho e bom de ser ouvida com atenção por um desconhecido que não tentou ser mais do que era. Duarte guardou o riso dela, que ele descrevia aos amigos como um riso de pessoas que já se decepcionaram e continuaram dispostas à alegria. Seis meses depois, os dois ainda contavam a mesma noite, cada um com a sua versão, e nenhuma das versões fechava a porta a uma continuação.
Há histórias que começam assim, por acasos de luz e de chuva, e que ficam a pedir companhia. Neste site, o leitor encontra outros encontros que também mudaram de rumo numa única noite: o convite por olhares que mudou tudo naquela milonga, onde um reencontro de tango ensinou a adiar e a decidir, e a guardiã do farol e o visitante de inverno, que descobriu que a solidão também pode abrir a porta a uma visita inesperada. Cada uma dessas narrativas tem a sua própria tensão, o seu próprio silêncio e o seu jeito particular de dizer sim. O que partilham é a convicção de que a intimidade se constrói devagar, palavra por palavra, pausa por pausa.
Como em todas as histórias publicadas aqui, todos os personagens desta história são adultos, bem maiores de dezoito anos, capazes de escolher, de recusar e de voltar atrás. O que quer que tenham vivido naquela noite sem luz, viveram por vontade própria, com consentimento afirmado, renovável e respeitado do começo ao fim — e é exatamente por isso que a lembrança continua a valer a pena.