Contos Eróticos

A Última Cliente da Noite: tensão no ginásio ao fim do dia

O ginásio ao fim do dia esvaziava devagar, como se o prédio respirasse pela primeira vez desde o meio-dia. Às vinte e duas horas restavam luzes pela metade, o barulho surdo do ar-condicionado e uma única cliente na sala de musculação. Ela fazia a última série de remada curvada com a disciplina de quem sabe exatamente por que está ali, e o instrutor noturno conferia os halteres na parede, fingindo que não acompanhava o ritmo dela pelo canto do olho.

O turno que não terminava

Júlia tinha vinte e nove anos, era fisioterapeuta num hospital da zona leste e só conseguia treinar depois das vinte e uma hora, quando o corpo já pedia descanso mas a cabeça ainda não. Frequentava aquele ginásio havia quatro meses, sempre nas mesmas noites, sempre com a garrafa de água verde e a trança desfeita pelo suor.

Bruno completava trinta e dois naquela semana. Fazia plantão como instrutor do turno da noite enquanto fechava a faculdade de educação física, e conhecia pelo nome todos os que treinavam tarde. Ainda assim, havia algo na pontualidade de Júlia que ele notara desde a primeira semana — ela dizia bom dia mesmo à noite, e isso bastou para que ele guardasse o nome.

O ritual durou três meses sem que nenhum dos dois desse um passo além. Ele ajustava o peso no aparelho quando ela chegava; ela devolvia o elástico no lugar; entre uma série e outra trocavam frases curtas sobre o dia, o tempo, a reforma da academia que nunca terminava. Uma vizinhança calma, sem pressa, do jeito que as coisas demoram a acontecer quando valerão a pena.

O que Júlia notou primeiro não foi o sorriso, nem os braços, nem a paciência com que ele explicava biomecânica. Foi que ele sempre perguntava antes de tocá-la. “Posso corrigir seu ombro?”, ele dizia, e esperava o sim antes de aproximar a mão. Nenhuma correção era surpresa, nenhum contato era dado por certo. Num mundo de mãos apressadas, a pergunta antes do toque parecia um idioma raro, e ela começou a responder sim mais do que precisava.

O que Bruno notou primeiro foi a constância. Júlia não treinava para aparecer; treinava para durar. Chegava exausta e saía inteira, e nos dias ruins ela mesma diminuía a carga sem drama, dizendo que corpo não era máquina de obediência. Ele, que passara anos ouvindo gente se culpar por série perdida, achou aquela mansidão a coisa mais bonita que o ginásio guardava naquele horário.

Ele lembrava até das lesões dela. Quando Júlia mencionou, ao acaso, o ombro cansado dos plantões longos, Bruno reescreveu o treino no dia seguinte, tirou o desenvolvimento por cima da cabeça e pôs trabalho de escapula. “Se doer amanhã, a culpa é minha”, brincou, e ela respondeu que fisioterapeuta queixoso era o pior tipo de paciente, e os dois riram como quem já tinha combinado de rir.

Na sexta-feira de março, choveu como só chove em março. O gerente saiu às vinte e uma e meia por causa da alagação na avenida, o aplicativo de check-in travou, e às vinte e duas e quinze restava no ginásio ao fim do dia uma cliente, um instrutor e o barulho da água batendo na calçada. Júlia terminou a última série, devolveu o halter e olhou o relógio.

— Vou fechar a sala devagar — Bruno disse, do balcão. — Tem tempo se quiser alongar. A máquina de café ainda não desliguei.

Ela riu, porque café às vinte e duas horas era uma péssima ideia que os dois sempre tomavam juntos mesmo assim. Ele trouxe os dois copos, sentou no banco a dois metros dela, distância de colega, e ficou ali, girando o copo, enquanto a chuva desenhava linhas na vidraça.

Conversaram de semanas. Do plantão dobrado dela, do estágio dele num colégio, da tia que insistia em marcar consultas às seis da manhã. Em algum momento o assunto escorregou para solidões, e Júlia contou que treinava tarde porque o apartamento ficava grande demais no fim do dia, e Bruno admitiu que o turno da noite combinava com quem também não tinha pressa de voltar para casa.

No grupo de alunos da academia, circulavam historinhas que todo mundo fingia não ler — encontros que começavam depois da última série eram quase um gênero ali dentro. Júlia mencionou uma delas, meio por brincadeira, e Bruno respondeu sério, baixinho, que história boa era a que terminava com todo mundo podendo dizer sim até o fim. A frase ficou pairando entre os dois como cheiro de chuva.

Às vinte e duas e quarenta, o sistema apagou metade das luzes automaticamente. O ginásio ficou âmbar, úmido, pequeno. Júlia se alongava no colchonete e Bruno recolhia os elásticos, e os dois perceberam, ao mesmo tempo, que não estavam mais conversando sobre nada — estavam apenas demorando.

Luzes baixas, palavras claras

Ele sentou no colchonete vizinho, a um braço de distância, e disse o que dizia sempre, só que agora sem nenhum aparelho no meio:

— Posso continuar? — ele perguntou, e ela respondeu que sim, ainda sem saber exatamente o que ele ia dizer, o que de certo modo era a resposta mais corajosa da noite.

— Eu gosto de você — Bruno disse, sem cerimônia e sem pressa. — Gosto desde o dia em que você devolveu o elástico no lugar pela primeira vez. E eu ia continuar gostando em silêncio, mas você riu do café de hoje e eu perdi a linha.

Júlia riu de novo, porque perder a linha daquele jeito, com aquela calma, era uma coisa difícil de não retribuir.

— Eu também gosto — ela disse. — Do seu jeito de perguntar as coisas. Sabe que ninguém pergunta nada, né? As pessoas chegam dando por certo. Você pergunta. É… — ela procurou a palavra — reconfortante. É desejo, também, mas é reconfortante primeiro.

Ele assentiu devagar, como quem recebe um presente e não quer amassar o papel.

— Então vamos fazer do meu jeito — ele disse. — Nada aqui acontece sem pergunta, e nada continua sem vontade. Se eu for além do que você quer, você me diz. A qualquer momento, a gente para. Sem custo, sem drama, sem academia estranha amanhã.

— Combinado — ela respondeu, e a frase dele soou nos dois como um acordo mais antigo do que a noite.

Ela estenceu a mão, não para puxá-lo, mas para oferecer. Ele segurou os dedos dela como quem segura algo quente, sem pressa e sem pressão, e ficaram assim um instante, apenas mãos, enquanto a chuva arredava lá fora. Dois adultos que sabiam exatamente o que estavam fazendo ali — não dois impulsos atropelados, mas duas pessoas que escolhiam, com os olhos abertos e as palavras disponíveis.

— Quero que você fique — Júlia disse, e disse mais: — Quero isso desde janeiro. Só não queria que atropelasse o treino. — A frase saiu inteira, sem desculpa. Consentir em voz alta, descobriu ela ali, também era uma forma de descanso; o corpo relaxa quando a boca assume.

Bruno sorriu como quem guardava a frase para depois. Se aproximou devagar, perguntou com o olhar, esperou o aceno. O beijo que veio foi pequeno, curto, quase tímido, do tipo que pede permissão de novo logo em seguida. Não houve pressa dentro daquela luz âmbar; havia tempo, havia chuva, havia a certeza tranquila de que parar sempre continuaria possível.

— Sua casa é perto? — ele perguntou.

— Duas quadras. E a sua?

— Perto o suficiente para caminhar na chuva, longe o suficiente para você mudar de ideia no caminho.

— Eu não vou mudar — ela disse. — Mas obrigada por deixar a porta aberta.

Bruno apagou a última fileira de luzes, o portão desceu, e os dois saíram para a marquise com os copos vazios na mão, rindo de nada. O que aconteceu depois pertenceu só a eles, no aquecimento lento de um apartamento pequeno, e não a estas palavras: a história termina aqui porque eles escolheram assim — com todos os sim dados por vontade e nenhum deles precisado.

Na segunda seguinte, os dois voltaram ao ginásio ao fim do dia como se nada tivesse se apressado. A remada continuou no mesmo peso, o café continuou ruim, a distância profissional voltou a existir entre um turno e outro. Só o aplicativo, sabendo de nada, continuou recomendando um tal encontro no último ônibus na aba de leituras, como se história de ginásio fosse sempre a mesma história.

Se em algum dia a chuva apertar de novo no fim do turno, eles sabem o caminho — e sabem, principalmente, que qualquer um dos dois pode dizer basta e ser ouvido na primeira sílaba.