Contos Eróticos

Férias no Algarve Imprevistas: O Verão Que Mudou Tudo

Aviso: este é um trabalho de ficção. Todas as personagens são adultos, com idades entre trinta e quatro e quarenta e um anos.

Beatriz tinha trinta e quatro anos, uma vida inteira organizada em planilhas, voos confirmados e hotéis com avaliação acima de quatro vírgula cinco. Por isso, quando o painel do aeroporto piscou em vermelho voo cancelado por overbooking, ela sentiu o chão do Algarve fugir de baante dos pés — antes mesmo de o pé direito ter tocado nele. Férias no Algarve, planejadas durante onze meses, reduzidas a uma fila de reclamações e um número de protocolo.

Tomás, quarenta e um anos, era o tipo de homem que fazia plans B parecerem plans A. Estava dois lugares atrás dela na mesma fila, com uma mochila de lona surrada e a paciência de quem já tinha perdido voos em três continentes. Foi ele quem notou que a agência só conseguiria remarcar tudo para dali a quatro dias — o tempo exato que as férias no Algarve de Beatriz ainda tinham de validade.

— A companhia oferece hospedagem num hotel em Faro — anunciou a funcionária, já com a voz gasta. — Mas só temos quartos individuais.

Beatriz olhou para Tomás como quem avalia risco. Tomás olhou para ela como quem oferece solução.

— Eu conheço uma pensão em Lagos — ele disse. — Dona Albertina, segunda geração de uma casa de família. Tem dois quartos. Se a senhora não se importar de dividir um teto e um café da manhã, resolvemos os dois o problema.

Ela hesitou o tempo de um copo d’água. Depois estendeu a mão.

— Beatriz. E sim, aceito.

Dia um: o pôr do sol

A pensão ficava no alto de Lagos, numa rua de calçada portuguesa onde os petúnias penduravam das janelas. Dona Albertina, uma mulher de riso fácil e olhar analítico, entregou as chaves com um comentário que Beatriz levaria o resto da viagem para decifrar:

— O Algarve tem destas coisas, minha querida. A gente vem por uma razão e fica por outra.

Os dois quartos dividiam uma varanda comprida voltada para o mar. Às sete da tarde, o céu do Algarve fez aquela coisa que só o céu do Algarve faz: incendiou-se de dourado, depois de rosa, depois de um azul quase preto, sem pedir licença. Beatriz e Tomás acabaram na varanda ao mesmo tempo, cada um com seu copo de vinho verde, separados por uma distância educada e por uma curiosidade nada educada.

— Você veio ao Algarve para descansar ou para fugir? — perguntou ele.

— Para descansar de fugir — respondeu ela, e riu da própria frase antes que ele risse junto.

Conversaram até as estrelas ficarem nítidas. Ele era fotógrafo de arquitetura, apaixonado por paredes caiadas e o modo como a luz batia nelas às cinco da tarde. Ela auditava riscos em um banco, apaixonada por planos que não furavam. As férias no Algarve imprevistas tinham colocado lado a lado exatamente o que cada um mais temia: o imprevisto.

Dia dois: a praia

No segundo dia, Tomás propôs caminhar até uma enseada que só se alcançava a pé, na maré baixa. A trilha descia entre figos-do-inferno e roseiras bravas, e o mar apareceu de repente, turquesa e mudo, como um segredo bem guardado. Não havia mais ninguém na areia.

— Isso não está em nenhum guia — disse Beatriz.

— Está — ele respondeu. — Só está em português e em edições de antes da internet.

Ela tirou os chinelos e entrou na água até os joelhos. Ele ficou na areia, fotografando as falésias douradas que o sol da tarde recortava como escultura. Em determinado momento, os olhares se cruzaram por um segundo a mais do que a amizade de quarenta e oito horas autorizava. Os dois perceberam. Os dois fingiram que não.

— O seu sim importa, e continua a importar — ele disse, quebrando o silêncio com uma franqueza que a desarmou. — Se em algum momento quiser parar, paramos. Não há pressa, não há cobrança, só o que formos escolhendo juntos.

Beatriz demorou a responder, porque resposta daquelas não se dá com pressa.

— Também é o que eu quero — ela disse, olhando para ele, sem desviar. — De verdade. Do meu jeito e no meu tempo.

Dia três: o jantar

À noite, jantaram num restaurante de esquina onde o polvo vinha assado com batatas e o pão chegava ainda morno. O dono, o senhor Joaquim, tratou os dois como se fossem casados de vinte anos, o que rendeu risadas e um vinho tinto do Alentejo que não constava no cardápio.

— Uma semana atrás, eu sabia exatamente onde ia estar hoje — disse Beatriz, girando a taça. — Numa cadeira de praia numerada, com protetor solar fator cinquenta e um livro de autoajuda que eu ia fingir ler.

— E agora?

— Agora eu não sei nem onde vou estar amanhã. E, pela primeira vez em anos, isso não me dá pânico.

Tomás estendeu a mão por cima da mesa, palma virada para cima, em oferta. Não em cobrança. Beatriz pousou a mão na dele, e os dedos se entrelaçaram devagar, como quem assina um contrato que nenhuma planilha comportaria.

Dia quatro: a tempestade

No quarto dia, uma frente fria desabou sobre o cabo de São Vicente, e a chuva transformou Lagos numa cidade outra: telhados escorrendo, turistas escondidos, gatos encolhidos sob os beirais. A pensão ficou em silêncio, com apenas o som da água nas calhas.

Beatriz e Tomás dividiram o sofá da sala comum, um cobertor sobre os joelhos e uma garrafa de chá. Dona Albertina apareceu com um tabuleiro de bolinhos de amendôa e desapareceu com a discrição de quem entende de desencontros e encontros.

— Posso te abraçar? — perguntou ele, com o tom de quem pergunta se pode abrir uma janela.

— Pode — respondeu ela. E acrescentou, porque era dela e não dele que a resposta precisava vir: — E se eu mudar de ideia no meio do caminho, eu digo. Sem drama, sem explicação, sem mágoa.

— Sem drama, sem explicação, sem mágoa — repetiu ele, como quem decora uma regra de ouro.

O abraço começou desajeitado, do jeito que abraços entre adultos conscientes começam, e foi encontrando o próprio formato. A chuva aumentou lá fora. Aqui dentro, o mundo reduziu-se à respiração dos dois, ao calor do chá, à textura do cobertor. Quando as testas se encostaram, nenhum dos dois apressou o momento seguinte.

— Ainda bem que o voo cancelou e me deixou aqui — ela disse, e a frase ficou no ar entre eles, inteira, antes de qualquer outra coisa.

Dia cinco: a manhã

A última manhã de férias no Algarve amanheceu lavada de sol, como se o céu pedisse desculpas pela véspera. Subiram juntos os degraus de pedra até o mirante, e de lá o mar parecia uma folha de papel em branco — a mesma sensação que Beatriz tinha diante da própria vida, agora sem medo de escrever nela.

— Eu moro em Lisboa — disse ela, sem cerimônia.

— Eu também — disse ele, com um sorriso que valia por um capítulo inteiro.

— Então não é despedida — concluiu ela.

— É apenas o fim do primeiro capítulo.

Desceram devagar, sem pressa de adultos que aprenderam que pressa é o único erro realmente irreversível. Na porta da pensão, Dona Albertina entregou-lhes dois figos que ainda tinham o calor do sol e uma frase de despedida:

— Voltem quando quiserem. O Algarve gosta de quem volta.

Este conto sensual de férias no Algarve imprevistas pertence à mesma família de narrativas em que acasos de viagem reescrevem a vida de duas pessoas — como em O Casamento em Porto Onde Dois Amigos Perderam a Timidez, onde um convite inesperado também muda tudo, ou em Viagem de trabalho em dupla: tensão e desejo no hotel, em que a proximidade forçada pela estrada revela o que a rotina escondia. Quem prefere o charme discreto da vizinhança pode se perder ainda em contos eróticos como este, ou descobrir como uma mudança de endereço mexe com os sentimentos em O caminhão de mudanças parou na calçada às sete da manhã de uma terça. Em todos eles, o que muda a história nunca é o lugar: é o coração que aceita o convite do imprevisto.

No fim da noite, quando os convidados já tinham ido e a banda desmontava os instrumentos, os dois ficaram sozinhos na sala vazia, entre copos e promessas que ninguém mais ouviu. Foi ali, com a cidade a acender lá fora, que decidiram que aquela história ia continuar para além do casamento — porque o que começa numa pista de dança raramente acaba quando a música para.