Conto Sensual: A Noite de Chuva num Hotel do Porto
A noite de chuva começou antes do jantar e não pediu licença. Em duas horas, a cidade que Duarte tinha visto do avião — telhados cor de tijolo, o Douro esticado como um fio de estanho — virou uma cartografia impossível: ruas transformadas em leitos de água, semáforos piscando em vermelho, os bondes recolhidos mais cedo do que o costume. O voo dele de volta a Lisboa tinha sido cancelado às oito. Às nove, o recepcionista do hotel de Ribeira já tinha repetido, três vezes, a mesma frase com voz de desculpa: ninguém saía dali até de manhã.
O hotel era antigo do jeito que os hotéis daquela rua são: escadaria de mármore gasto, um elevador que rangia como um instrumento desafinado, tapeçarias de barcos no corredor do primeiro andar. No salão do rés do chão, entre o bar e a vidraça comprida que dava para o rio, havia um piano de cauda que ninguém lembrava de quem era. Naquela noite, com as ruas fechadas e os hóspedes encurralados, o gerente fez a única coisa sensata que havia para fazer: acendeu as velas de reserva e pediu à pianista da casa que tocasse, porque silêncio e tempestade, juntos, deixam qualquer um sombrio.
Foi quando o piano acendeu. Não o instrumento, que era preto e velho, mas o salão inteiro, do primeiro acorde em lá menor. Ela tocava com os ombros relaxados e a atenção inteira nas mãos, como se a música fosse uma conversa que ela mantinha com a chuva do outro lado do vidro, cada nota respondendo a uma rajada, cada pausa esperando o trovão terminar de falar.
Duarte desceu para o salão porque o quarto estava pequeno demais para a espera. Sentou-se na poltrona de fundo, a mais distante do piano e a mais perto da janela, e ficou ali, com o copo de vinho do Porto intacto, ouvindo. Não era a música que o segurava, ou não só. Era a forma como ela tocava: sem pressa nenhuma de agradar, com uma disciplina mansa, de quem sabe exatamente por que está ali.
Quando ela fez a pausa longa entre duas peças, ele se aproximou do piano. Não disse nada de bonito, porque as frases bonitas, com chuva, saem todas tortas. Disse apenas:
— A senhorita toca como quem desenha um mapa. Tem marcos, tem rios, tem escala.
Ela riu, e o riso dela era curto e verdadeiro, o tipo que não pede permissão.
— Mapa é com o senhor, pelo visto. Eu faço barulho organizado.
—-restaurador — ele corrigiu, sorrindo. — E mapas antigos, não novos. Tem diferença. Mapa novo ninguém ama.
O piano contra a tempestade
Eles conversaram ali, entre o piano e a chuva, mais do que a etiqueta de hotel recomenda. Duarte contou que estava no Porto para entregar um atlas de 1745, encomenda de uma fundação de Lisboa: vinte e duas cartas do curso do Douro, desenhadas por um engenheiro que nunca tinha subido o rio e mesmo assim o conhecia por inteiro, porque lia diários de bordo como quem lê cartas de amor. Para consertar o atlas, ele tinha passado quatro meses com ponta de bisturi e papel japonês, tirando mancha de umidade século por século.
— E o que a senhorita faz, quando não toca para hóspedes presos?
— Eu conheço o Porto de ouvido — ela disse. — Minha avó morava em Gaia. Aprendi a cidade pelos sinos, pelas gaivotas às seis da manhã, pelo rangido das tabuletas na rua das Flores. Mapa nenhum me ensinou isso.
— Então nós dois trabalhamos com o que sobrou do tempo — ele disse. — Só que você guarda som e eu guardo papel.
A tempestade escolheu aquele momento para subir de tom. A luz do salão falhou duas vezes, a água bateu na vidraça em ondas inteiras, e o barman, já de casaco, avisou que ia deixar a chave com o porteiro noturno. Sobraram no salão as velas, o piano, ela e ele.
Ela voltou ao banco e tocou outra coisa, mais baixa, improvisada. Duarte reconheceu o jogo: ela estava respondendo à chuva nota por nota, chuva forte em acordes graves, chuva fina em tercinas, e no meio disso um tema pequenino que voltava sempre, teimoso, como quem pergunta a mesma coisa duas vezes.
— Isso é o quê? — ele perguntou, de pé ao lado do piano, perto o bastante para ver as mãos dela trabalharem.
— Um mapa sonoro da noite — ela disse, sem tirar a atenção das teclas. — Toda tempestade tem um desenho. Hoje o desenho tem uma parte curiosa, que insiste em repetir.
— E o que essa parte curiosa está perguntando?
Ela deixou a frase suspensa no ar por três tempos, o que, naquele salão, durou uma eternidade pequena.
— Se o senhor de mapa vai subir para o quarto sozinho ou não.
Duarte tinha trinta e sete anos e ela, Beatriz, trinta e quatro: dois adultos, bem maiores de idade, experientes o suficiente para não confundir uma frase dessas com acaso e suficientemente honestos para não fingir que não a ouviram. Ele respondeu devagar, escolhendo as palavras como escolhia o papel de restauração, uma a uma, porque havia coisas que não se consertam depois de rasgadas.
— Só se a senhorita subir comigo. E só se for vontade dos dois, dita em voz alta.
Ela fechou a tampa do teclado com o cuidado de quem fecha um livro bom no meio, sem estragar a lombada.
— Pois então eu digo em voz alta. Ainda bem que o senhor não é o único leitor por aqui. Nas noites paradas, entre um turno e outro, eu leio contos eróticos na internet para espantar o tédio. Uma vez li a história de um encontro no último ônibus e passei dias pensando nela. Aqui, hoje, com essa chuva, me pareceu que a vida estava me devolvendo a cortesia.
O corredor até o quarto doze
Eles subiram pela escadaria de mármore porque o elevador antigo parecia um cofre de medos naquela noite escura. No segundo lanço, a luz de emergência pintou os dois de âmbar, e Beatriz parou um degrau acima, o que a deixava exatamente da altura dele, e perguntou, sem cerimônia e sem pressa:
— Ainda é sim?
— Ainda é.
Ela disse sim com a voz inteira, e explicou, sem drama nenhum, que aquele sim valia enquanto durasse a vontade dos dois e podia ser retirado a qualquer momento, por qualquer um, sem explicação e sem mágoa. Duarte disse que era exatamente assim que um sim devia funcionar, e que nenhum mapa antigo, em vinte anos de ofício, tinha conseguido desenhar coisa mais bonita do que essa regra.
No corredor do primeiro andar, os barcos das tapeçarias balançavam à luz da vela que ele carregava. A chuva continuava grande, mas já sem fúria, mais parecida com um público que aplaude depois da peça. A porta do quarto doze, com a chuva batendo na vidraça do lado do rio, abriu sem rangido.
Lá dentro, ele pousou a vela na cômoda, e ela pousou o casaco na cadeira, e o que veio depois pertenceu aos dois e a mais ninguém — devagar, entre risos baixos e perguntas que sempre recebiam resposta, com a música do salão ainda tocando na memória dos dois e o rio, lá fora, subindo devagar o seu mapa antigo. A vela queimou até onde a vela quis queimar. O resto é do domínio dos que dizem sim.
De manhã, a chuva tinha ido embora com a mesma falta de cerimônia com que tinha chegado. O Douro corria barrento e satisfeito, os telhados fumegavam ao sol de outubro, e no salão o piano dormia de tampa fechada. Duarte desceu primeiro e pediu dois cafés; Beatriz desceu logo depois, com o cabelo ainda úmido do chuveiro e a mesma expressão de quem acaba de terminar uma peça bem tocada.
— Seu voo reabriu — disse o recepcionista, quase desculpando-se por dar uma boa notícia.
Ela o acompanhou até a porta. Ali, com a cidade lavada e os sinos começando as nove da Sé, Beatriz pensou que tinha lido histórias demais sobre primeiros encontros — inclusive um primeiro encontro depois de um match que sempre achou bonito demais para ser verdade — para não reconhecer quando a vida escrevia um capítulo só dela.
— Volta quando consertar outro mapa por aqui — ela disse.
— Volto quando chover — ele respondeu. — Guarde a tempestade para mim.