Contos Eróticos

O Colega Novo do Escritório: Um Conto Sensual no Trabalho

O colega novo do escritório chegou numa terça-feira de setembro, com uma mochila surrada e um caderno de capa dura que ninguém mais usava ali dentro. Apresentou-se como Rafael, designer de produto, recém-saído de cinco anos em Amsterdã, e a primeira coisa que fez foi reclamar, com toda a boa educação, das canecas descartáveis na copa. Marina ergueu os olhos do notebook apenas o suficiente para decidir que ele parecia certinho demais para ser interessante.

Ela estava errada, descobriria depois. Mas isso levou três semanas.

Nas primeiras duas, Rafael foi só um nome novo na lista do canal do time: alguém que reagia com emoji de foguete aos comentários alheios, que confundia o bebedouro do terceiro andar com o do segundo e que assistia a reuniões inteiras sem interromper uma única vez. Marina começou a notar pequenas coisas sem querer notar. Que ele buscava café sempre no mesmo horário dela, com uma precisão quase suspeita. Que, quando discordava de algo, dizia deixa eu te devolver uma pergunta antes de discordar, como se discordar também merecesse boas maneiras. Que as camisas de flanela dele tinham sempre um detalhe fora do lugar — um punho dobrado torto, um botão errado — como se roupa nenhuma o levasse muito a sério.

Coisas pequenas. Coisas que não deviam contar nada.

Contaram.

O Projeto em Dupla

A virada veio com a campanha da Feira de Inovação, um daqueles projetos que ninguém quer porque exige noites compridas e crédito incerto. A diretora de criação decidiu a dupla com um argumento de duas linhas: o melhor texto do time junto do melhor desenho do time. Marina aceitou com o entusiasmo morno de quem sabe que as semanas seguintes serão feitas de café requentado e arquivo aberto em duas telas.

A primeira sessão foi correta e impessoal, duas cadeiras a uma mesa inteira de distância. A segunda, um pouco menos. Na terceira, Rafael ocupou o outro lado do quadro branco e desenhou a arquitetura da campanha inteira de memória, sem consultar uma nota, e Marina se pegou observando o jeito como ele segurava o marcador — firme, sem pressa, como se o objeto tivesse feito falta à mão dele a vida toda.

— Você escreve como quem pinta — ele disse, lendo o headline que ela havia rabiscado num post-it amarelo.

— E você desenha como quem escreve — ela respondeu, sem levantar os olhos, e ouviu o riso baixo dele do outro lado da mesa, um riso que nem tentava ser charmoso e que, justamente por isso, era.

Eles desenvolveram um idioma próprio antes de perceber que estavam falando um. O projeto em dupla ganhou um caderno compartilhado de ideias soltas, uma playlist que ia de Roberta Campos a Bon Iver e um código de post-its: amarelo para ideia boa, laranja para ideia arriscada, rosa para ideia que os dois amavam mas o cliente jamais aprovaria. O rosa era o mais usado. Toda quinta-feira, o quadro dos dois parecia uma horta de flores impossíveis.

Foi numa noite de prazo que a coisa mudou de temperatura. O escritório tinha esvaziado depois das oito, as luzes do open space se apagavam sozinhas em blocos, e só a ilha de luz sobre a mesa deles continuava acesa, cirurgicamente poupada pelo sensor. Faltava renderizar a última peça, e a barra de progresso avançava devagar demais para qualquer conversa que exigisse atenção. Então ficaram em silêncio, dividindo o mesmo fone — uma pasta de ouvido para cada um — escutando a mesma canção enquanto a máquina trabalhava.

Em algum momento entre um refrão e outro, a mão dos dois chegou junto sobre o mouse. Ninguém afastou. Ficaram ali, imóveis, dois dedos encostados num plástico barato, prestando uma atenção absurda a algo que não era o cursor. A barra chegou ao fim, o arquivo foi salvo, e Marina percebeu que estava prendendo a respiração desde o meio da música.

A partir dali, o silêncio dos dois ganhou sintaxe. Um sabia quando o outro estava travado num parágrafo só pela frequência das batidas no teclado. Rafael deixava de tocar música com letra quando Marina escrevia; Marina passou a guardar as melhores frases para ler em voz alta quando ele estivesse por perto, embora jamais admitisse isso nem sob revisão da diretoria. Ninguém no time comentou nada, o que significava, naquele escritório, que todos já tinham comentado tudo.

Ela foi embora sem comentar nada naquela noite, dirigiu para casa com o rádio desligado e passou as horas relendo um briefing que conhecia de cor. No elevador, na manhã seguinte, os dois se cumprimentaram com a discrição de um banco suíço. Mas alguma coisa já tinha mudado de lugar, e as duas pessoas dentro daquele elevador sabiam exatamente qual.

O happy hour do time, na sexta, não ajudou nada. Alguém disse, alto demais, que eles dois tinham uma química que dava inveja, e Marina devolveu com uma piada sobre prazo apertado, enquanto Rafael, do outro lado da mesa, apenas sorria para o copo de água com gás dele. Ele não bebia em dia útil, contou depois. Nunca uma frase tinha parecido tão carregada de intenção sem carregar nenhuma intenção declarada.

Na segunda seguinte, no corredor da impressora, o gerente de projetos comentou, inocente como um trovão, que o feedback sobre a campanha estava ótimo e que a dupla precisava ser mantida. Marina disse que concordava por motivos estritamente profissionais. Rafael, do outro lado da impressora, olhou para ela exatamente meio segundo além do aceitável, e o meio segundo ardeu.

Marina tinha lido histórias assim, em outras vidas ou em outras páginas: gente que se perdeu numa noite de chuva num hotel do Porto, desconhecidos que marcaram um primeiro encontro depois do match e não conseguiam disfarçar a expectativa na porta do restaurante. Sempre achou que aquilo era coisa de página, não de gente de verdade, e muito menos de gente de verdade com crachá. A vida, claramente, tinha opinião diferente.

A entrega final saiu numa terça, às nove da noite, depois de três revisões e uma apresentação que a diretora aprovou de pé. O restante do andar estava vazio; do outro lado da vidraça, a cidade piscava com a paciência de quem não tem prazo. Rafael pegou duas canecas na copa e voltou com café passado na hora, feito na máquina velha que só ele tinha paciência de operar, e propôs um brinde ridículo e perfeito: ao post-it rosa que venceu.

Ficaram ali, encostados na quina da mesa, canecas na mão, conversando sobre tudo que não era trabalho: o irmão dele em Recife, o mestrado dela abandonado pela metade, o medo comum de elevador antigo. A cada piada, a distância encurtava um pouco, do jeito que a distância encurta quando ninguém quer assumir a responsabilidade do movimento.

Marina e Rafael eram adultos — ela tinha trinta e dois anos, ele trinta e quatro — e nenhum dos dois estava confuso sobre o que aquilo era. Talvez por isso mesmo, quando o silêncio chegou, não teve nada de constrangedor: teve gosto de pergunta.

— Posso te beijar? — Rafael perguntou, sem aproximar mais, as duas canecas ainda servindo de fronteira provisória.

— Pode — ela disse, e a palavra saiu mais fácil do que qualquer headline que ela já tinha escrito.

O beijo foi devagar, do jeito que se entra num mar frio de que a gente já sabe que vai gostar: primeiro a hesitação, depois a certeza inteira. A mão dele encostou no rosto dela como quem pede licença; a dela achou o punho da camisa torta e finalmente endireitou o botão errado, porque tinha esperado semanas por isso. Quando se afastaram, os dois riram baixo, sem razão aparente, do jeito que a tensão ri quando se resolve.

Depois da Entrega

— Isso não vai caber no open space — Marina disse, ainda meio sem fôlego. — Jantar primeiro. Comida de verdade, mesa de verdade.

Rafael levou-a a um italiano escondido numa rua sem placa, onde o garçom o tratava pelo nome. Conversaram por três horas sem olhar uma única vez o relógio, e Marina descobriu que a versão dele fora do expediente era ainda melhor que a versão compilada: contava histórias com final ruim de propósito, puxava assunto sério sem peso, escutava daquele jeito que faz a pessoa se sentir a única transmissão do mundo.

Na sobremesa, ele confessou que tinha hesitado duas semanas antes de pedir transferência para o time dela, porque não queria que o trabalho servisse de desculpa. Marina respondeu que, no caso dele, o trabalho tinha sido menos desculpa e mais cenografia — e que ela tinha percebido desde o terceiro post-it rosa. Eles riram, e a risada dessa vez era outra: não tinha mais nada para esconder.

Na porta do prédio dela, mais tarde, ficou aquele instante clássico em que o mundo inteiro cabe em um degrau. — Se em algum momento você quiser parar, a gente para — Rafael disse, sério de repente, os polegares dela presos entre as mãos dele. — Também vale o contrário, combinado? — Combinado — Marina respondeu, e foi ela quem diminuiu a última distância.

Marina puxou Rafael pela mão para dentro, e a porta se fechou devagar atrás dos dois, discreta como quem entende o momento. O resto da noite ficou do lado de lá da fechadura, onde precisava ser — e foi.

De manhã, o sol de setembro entrou pela fresta da cortina e desenhou uma linha morna no chão do quarto. Fizeram café da forma mais demorada possível, dividindo torrada e o caderno de capa dura dele, que agora vivia sobre a mesa da cozinha como um objeto doméstico. Nenhum dos dois disse nada sobre trabalho, e nenhum dos dois conseguiu parar de sorrir, o que era, de certa forma, o mesmo assunto.

No escritório, na semana seguinte, nada mudou de posição e tudo mudou de peso. As sessões de projeto passaram a vir com café passado na hora; o post-it rosa migrou da parede para a borda do monitor dela, com um desenho novo: duas canecas, um fone, um coração torto. A diretora de criação, que não perdeu uma única coisa na vida, apenas ergueu uma sobrancelha e marcou a reunião seguinte em trio.

Alguns colegas novos ficam apenas alguns meses; outros reorganizam o andar inteiro. O colega novo do escritório de Marina ficou — primeiro pelo contrato, depois pelo café das noites de prazo, depois por nenhuma razão que precisasse de justificativa. E toda terça-feira, quando ele chega com a mochila surrada e a flanela de botão torto, ela lembra da pergunta daquela noite e do gosto que a resposta teve: de coisas boas que demoraram exatamente o tempo certo.